Neste ano em que
Cordeirópolis completa 140 anos e
Limeira faz 200, nosso objetivo é recuperar informações importantes que ligam as duas cidades, mas que tenham importância para a comunidade de Cordeiro, que era o nome que a comunidade teve entre 1886 e 1944, período em que era subordinado a Limeira, com exceção dos anos 1886-1890, em que ela pertenceu a
Rio Claro.
Neste texto iremos colocar foco em documentos emitidos entre 1922 e 1935. Inicialmente destacamos as Resoluções de 21 de outubro de 1922 e de 2 de agosto de 1923, que prorrogaram o prazo inicialmente concedido ao Sr. Emil Schlaepfer, procurador da empresa Indústria de Seda Nacional, para organização e instalação de uma fábrica de fiação e tecelagem de seda em Cordeiro. A primeira resolução, assinada pelo então Prefeito de Limeira Capitão Flamínio Augusto de Toledo Barros, concedia a extensão do prazo da concessão oficializada em 23 de dezembro de 1921, autorizando-se a assinar o termo específico.
Entretanto, algo continuou a não sair como o planejado, tanto que a Resolução de 2 de agosto de 1923, desta vez assinada pelo Vice-Prefeito em exercício, Sebastião Barbosa de Toledo, concedia ao Sr. Emil Schlaepfer mais seis meses de prorrogação do contrato, a partir de 20 de março de 1923, para organização e instalação de uma fábrica de fiação e tecelagem de seda em Cordeiro, conforme o contrato assinado em 19 de março de 1920 e prorrogado em 24 de outubro de 1922. Apesar de todo o esforço da administração de Limeira, a empresa foi inaugurada e passou a funcionar em Campinas a partir de 22 de maio de 1924, traduzindo-se em uma grande decepção para a região.
Outra informação que nunca tínhamos conhecimento até agora está na Resolução de 28 de setembro de 1923, também assinada pelo vice-prefeito Sebastião Barbosa de Toledo, em que a Prefeitura de Limeira ficava obrigada a “indenizar o Coronel José Levy” com a quantia de um conto de réis, valor de dois terrenos que ele possuia em Cordeiro, ao lado das Escolas Reunidas já construída naquele momento, indispensáveis ao estabelecimento de ensino.
Em nossas pesquisas realizadas na década de 1990 e em todas as outras fontes consultadas nos últimos anos, não se encontraram referências a este evento. Provavelmente as escrituras foram feitas e registradas em cartórios de Limeira e posteriormente nenhum documento se referiu a elas até o final da década de 1960.
Outra lei importante do período, assinada pelo então prefeito Capitão Joaquim Manoel Pereira, cunhado do Coronel José Levy, é a de nº 225, de 2 de outubro de 1924, que isentava “de impostos predial, taxas de água e esgoto, de alinhamento, andaimes e custos com aprovação de plantas até 31 de dezembro de 1930 todas as residêncais que fossem construídas em Limeira e em Cordeiro com valor superior a 5 contos de reis.
Curioso que este dispositivo coincidiu sua vigência com o fim do período da “República Velha”, quando a partir de outubro de 1930 foram substituídas as autoridades estaduais e municipais a partir da vitória da Revolução de 1930, chefiada por Getúlio Vargas.
Passaram-se ainda mais alguns anos para que a Prefeitura de Limeira tomasse ações que impactariam a população de Cordeiro. Entre o final de 1928 e o início de 1929, foram emitidas resoluções visando a aquisição de terrenos para as obras da ampliação da Represa de Cascalho: a primeira visava adquirir dos herdeiros de Antonio Minatel terrenos no valor de 24 contos de reis, situado à margem do tanque, podendo fazer operações de crédito para isso; a segunda, de 12 de janeiro de 1929, autorizava a Prefeitura de Limeira a adquirir por somente 4 contos de reis, um terreno na mesma situação, mas desta vez de João Rosolen e outros e a terceira, do mesmo dia, autorizava a aquisição de um terreno com a mesma característica, mas pelo valor de 19 contos de reis.
Este documento esclarece uma dúvida de anos, sobre o motivo pelo qual, dentro dos terrenos registrados em nome da Prefeitura de Limeira (antigamente Câmara de Limeira) em Cordeirópolis estava um em nome de Angelo Piscitelli, e que não pertencia obrigatoriamente aos lotes do Núcleo Colonial do Cascalho. Piscitelli foi o único político da administração municipal de Limeira que, trinta anos antes, se manifestou contrário à criação do Distrito de Paz de Cordeiro. Até prova em contrário, somente a aquisição deste terreno se concretizou.
Com a vitória da Revolução de 1930 e chegada de Getúlio Vargas ao poder, houve um movimento visando eternizar as memórias daqueles que colaboraram para sua vitória, mas que faleceram antes do início da nova administração.
O Decreto nº 8, de 9 de dezembro de 1930, assinado pelo Dr. Lauro Corrêa da Silva, naquela época qualificado de “governador civil do
Município” de Limeira, dizia que ele estava “atendendo aos desejos da população de Limeira, Cordeiro e Iracemápolis, que de há muito vem se manifestando sobre o caso” e, aproveitando a comemoração do Centenário de Limeira, determinou que a Praça da Matriz seria denominada Praça Dr. Luciano Esteves Junior e uma praça situada no final da Rua Cunha Bastos, saída de Araras, seria denominada “24 de Outubro”, para marcar a data da vitória do movimento.
No caso de Cordeirópolis, o Largo da Matriz teria seu nome trocado para Praça João Pessoa, homenageando o político paraibano que foi candidato a Vice-Presidente na chapa de Getúlio Vargas, derrotada na eleição de 1930, considerada fraudulenta e que motivou o movimento militar que o colocou no poder e também trocou o nome da Rua da Liberdade, “isso porque para comemorar a data da liberdade já existe e fica mantida a Praça Antonio Bento, nome que representa perfeitamente a liberdade do elemento servil” para Siqueira Campos, que foi um dos participantes do movimento tenentista, que visava derrubar o governo federal pelas armas e que agiu a partir de 1922.
Como sabemos, a Praça João Pessoa teve seu nome trocado somente em 1970, a partir do falecimento do Comendador Jamil Abrahão Saad, vereador em Limeira, sub-prefeito de Cordeiro, vereador, Presidente da Câmara e Prefeito de Cordeirópolis, cujo título foi concedido pelo Legislativo local em 1967 e a Praça Antonio Bento teve seu nome trocado para Francisco Orlando Stocco em 1972, após a trágica morte do antigo pioneiro da tecelagem em Cordeirópolis, através da Fioseda, em um assalto em Limeira, onde estava residindo naquele momento. Para completar as homenagens, o Largo da Capela de Iracemápolis (Bate-Pau), conforme descreve expressamente a lei, também foi denominado de Praça João Pessoa.
Parece que a Prefeitura de Limeira só se preocupava com Cordeiro com relação à Represa do Cascalho, pois dentro deste período, somente mais uma medida, através do Ato nº 38, de 22 de agosto de 1934, assinado pela então Prefeita Maria Thereza Silveira de Barros Camargo, “atendendo à inadiável necessidade de serem reforçadas as obras da barragem da represa de Cascalho, neste Município, fornecedora quase que essencial de água à população local e que se acha em grave risco, devido às infiltrações” que se verificavam, e atendendo às conclusões dos “Engenheiros especialistas” que verificaram a represa, concluindo pela premência do início das obras de reforço”.
Por este ato, baseado na autorização do então Departamento de Administração Municipal, para que a Prefeitura de Limeira executasse estas obras por “administração direta”, foi aberto um crédito adicional de 44 contos e quatrocentos mil reis para “execução das obras da barragem e reforço da represa de Cascalho, cabendo à Diretoria de Engenharia do referido departamento a orientação e fiscalização das obras em referência. Não encontramos informações sobre a efetivação e conclusão desta obra, até o momento nos acervos pesquisados.
Algum tempo depois, foi assinado um Ato Municipal, pelo então Prefeito de Limeira, considerando que o Coronel José Levy era residente no Município há muito tempo, empregando sua atividade de que resultou larga soma de benefícios para a cidade e seria dever dela expressar seu sentimento quando da morte de cidadãos prestantes.
Por isso, o Dr. Gumercindo de Godoy, então Chefe do Executivo, considerando o falecimento ocorrido no dia anterior, de um homem que desempenhou “mandato municipal”, declarou feriado municipal o dia 4 de julho de 1935, determinando que a Prefeitura se fizesse representar no enterro, ordenando o hasteamento da bandeira nacional em sinal público de luto por três dias, oficiando-se à família enlutada.