A origem dos bairros de Cordeiro, que se tornou o distrito e
município de
Cordeirópolis, e Cascalho, que se tornou o Núcleo Colonial, emancipado em 1893, posteriormente o Bairro do Cascalho, são duas fazendas que em algum momento foram de propriedade do Barão de Cascalho (José Ferraz de Campos) e de seu filho, o Barão de Porto Feliz (Cândido José de Campos Ferraz).
Através de testamento, o Barão de Cascalho deixou seus bens para seus herdeiros, cabendo ao seu filho Cândido as propriedades chamadas Fazenda Cascalho e Fazenda Cordeiro, da qual não se conseguiram informações efetivas nos mais de 30 anos de pesquisas que temos realizado.
Foi na área supostamente da Fazenda Cordeiro que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF) construiu a estação de Cordeiro, que se tornou por aproximadamente cem anos, a conexão entre a linha tronco, que levava até Jundiaí, e o ramal de Araras, que começava em Cordeiro e terminava em Porto Ferreira, conforme definido na legislação aprovada há 150 anos.
O Barão de Porto Feliz faleceu em
Rio Claro em 1879, bem como sua esposa, e logo os herdeiros trataram de retirar, através de uma lei sancionada em 21 de abril de 1880, as fazendas de sua propriedade do Município de
Limeira, deslocando-as para Rio Claro.
Seria muito simples se num prazo de cinco anos a situação se modificasse radicalmente: partes da Fazenda Cascalho que não interessavam aos herdeiros, especialmente ao então deputado provincial Domingos José Nogueira Jaguaribe, cearense, filho do Visconde de Jaguaribe, e casado com uma das filhas o Barão de Porto Feliz, foram desapropriadas amigavelmente para a criação do Núcleo Colonial do Cascalho, uma propriedade dividida em lotes urbanos, suburbanos e rurais, que tinha por objetivo atrair imigrantes para a região, que tivessem condições de comprar uma área de terra para o trabalho na lavoura.
O desenho do local previa os lotes suburbanos e rurais, que seriam bem menores que os rurais, mas que serviriam teoricamente para os interessados que tivessem profissões que não fossem essencialmente ligadas ao cultivo da terra, mas necessárias aos trabalhos agrícolas. Também foi explicado na época que o objetivo era que os proprietários destes lotes também trabalhassem nas fazendas, mas sem a obrigação de morar nelas, ficando livres da subordinação aos fazendeiros.
Um almanaque de 1890, alimentado com informações dos leitores e de outras fontes estatísticas, pela primeira e única vez em todo o final do século XIX e início do século XX, informava a existência de uma “Povoação de Cordeiro”, cujo início de ocupação teria ocorrido em 1884.
Até o momento sabemos que Manoel Barbosa Guimarães, um advogado de Rio Claro, teria adquirido uma área de terras dos herdeiros do Barão de Cascalho e supostamente devido à demanda causada pela criação e implantação do Núcleo Colonial de Cascalho, entre os anos de 1885 e 1886, criou uma Capela, dedicada a Santo Antonio dos Cordeiros, e começou a vender lotes por escritura particular, sendo que o documento mais antigo preservado desta época datava de 30 de março de 1886, que depois de ficar conservado pelo advogado Antonio Luiz Cicolin, foi transferido a um meio de comunicação local, e no momento encontra-se em local incerto.
Como falado, no final de 1884 foi apresentado o relatório da comissão encarregada de avaliar as terras destinadas pelo herdeiro do Barão de Porto Feliz, que também era deputado provincial, concluindo pela viabilidade do negócio, aprovado pelo Governo de São Paulo.
Em abril de 1885, foi feita a escritura de compra e venda entre os herdeiros da propriedade e o Governo da Província, sendo que somente em janeiro de 1886 começaram a serem ocupados os lotes, brevemente por imigrantes suecos e dinamarqueses, e posteriormente por trabalhadores de origem germânica, aos quais se juntaram os de origem italiana, que pela sua maioria, suplantaram os anteriores e determinaram as características do local.
No veto transcrito na Mensagem relativa ao seu período de governo, transcreve-se o autógrafo do projeto de lei que restabelecia as antigas divisas entre Limeira e Rio Claro, retornando as “fazendas (hoje bairros)” de Cascalho e Cordeiros para Limeira, datado de 23 de março de 1889, assinado pelos deputados Duarte de Azevedo, Rubião Júnior e José Vicente de Azevedo.
Quanto a Cordeiro, desde 1887 a população tinha se mobilizado junto à Câmara de Limeira para que esta se manifestasse sobre a necessidade do retorno dos bairros ao seu local de origem. Apesar disso, somente em 1889 é que um projeto começou a tramitar na Assembleia Legislativa, sendo vetado pelo então Presidente da Província, Pedro Vicente de Azevedo.
Entretanto, o Presidente da época dizia que “por informações que tinha”, os motivos para a transferência das fazendas ainda persistiam, que se relacionava a um “número limitado de indivíduos”, mas tinham se tornado “antigas, unidas, conhecidas e respeitadas” para um núcleo de povoação que veio a formar-se nessa parte do território, ou seja, Cordeiro, e a Colonia do Cascalho, comprada pela província e distribuida a imigrantes.
Afirmava o mandatário que os desmembramentos e a falta de estabilidade de divisas eram inconvenientes, e o projeto era ilegal, por não conter manifestações das Câmaras e Juízes de Paz dos locais envolvidos, além de ter sido aprovado em tempo recorde (cinco dias - entre 18 e 22 de março). sem pareceres escritos ou discursos, por isso sendo vetado em 10 de abril de 1889.
Entretanto, com a mudança do regime monárquico para o republicano, e assumindo o governo de São Paulo Prudente de Moraes, este atendeu os pedidos da população e da Câmara de Limeira, dizendo que a alteração das divisas de 1880 foi requerida pelos proprietários, não consultando o interesse público, que o município de Rio Claro tinha ficado ainda maior, sendo Limeira um dos menores do Estado; que os bairros eram mais distantes de Rio Claro do que de Limeira, prejudicando os moradores nos seus afazeres cotidianos e que os bairros continuaram a pertencer à Paróquia de Nossa Senhora das Dores de Limeira.
Finalizou dizendo que as razões do veto feito pelo ex-Presidente Pedro Vicente de Azevedo não procediam, pois quem poderia julgar a “inconveniência” eram os moradores dos bairros de Cordeiro e Cascalho e tinha sido a partir das suas reivindicações que a Assembleia aprovou o projeto, concluindo pela edição do Decreto nº 39, de 31 de março de 1890, retornando Cordeiro e Cascalho ao Município de Limeira, ao qual pertenceram até 1949.
Apesar de muitos anos passados, ainda há tempo de registrar a gratidão do povo de Cordeirópolis ao ex-governador e ex-Presidente Prudente de Moraes, colocando o seu nome em alguma rua ou praça da cidade, especialmente neste ano em que a comunidade comemora 140 anos de existência.