O apoio oferecido pelos empregadores às mulheres que passam por tratamento de câncer de mama é um fator determinante para o retorno ao trabalho. Combinado com ajustes na rotina e readaptação funcional, o suporte dado pelas empresas contribui para que as profissionais retomem mais rapidamente suas atividades. “A reintegração profissional após o câncer de mama não é apenas médica, mas organizacional”, afirma o mastologista Marcelo Antonini, que coordena um estudo pioneiro e de grande relevância para a formulação de políticas de saúde ocupacional.
O estudo “Análise longitudinal dos fatores que influenciam o retorno ao trabalho após o tratamento de câncer de mama entre servidores públicos em
São Paulo” foi publicado na revista Mastology, periódico científico da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). Com a participação de pesquisadores do Hospital do Servidor Público Estadual Francisco Morato de Oliveira (HSPE-SP) e do BBREAST (Brazilian Breast Cancer Association Team), a investigação também tem a colaboração de centros de excelência de todo o Brasil.
A pesquisa envolveu 300 servidoras públicas estaduais de São Paulo diagnosticadas com câncer de mama não metastático e submetidas a tratamento cirúrgico no HSPE-SP entre outubro de 2021 e dezembro de 2022. “Até então, não existiam estudos publicados sobre o padrão de retorno ao trabalho entre servidoras públicas com plano de saúde privado no Brasil”, destaca Antonini, que é chefe do Setor de Ginecologia e Obstetrícia do HSPE-SP e fundador do BBREAST.
Das 300 participantes, 74,3% retornaram ao trabalho no prazo de 18 meses após o tratamento; 80,6% voltaram nos primeiros seis meses. Neste contexto, o estudo mostra que pacientes com doença em estadio inicial e tumores menores apresentaram taxas de retorno às atividades profissionais mais elevadas em comparação com mulheres diagnosticadas com tumores mais avançados. A pesquisa evidencia também que tumores em estadio inicial, menores e sem comprometimento linfonodal foram abordados com cirurgia conservadora de mama e biópsia do linfonodo sentinela, enquanto a doença avançada exigiu, com mais frequência, mastectomia, dissecção axilar e procedimentos que corroboraram para menores taxas de retomada da rotina de trabalho.
Ao abordarem as estratégias de tratamento, os pesquisadores constataram que a quimioterapia neoadjuvante ou adjuvante foi associada a menores taxas de volta às atividades profissionais (33,3% e 50%, respectivamente), enquanto as pacientes submetidas à radioterapia voltaram mais rapidamente ao trabalho (85,3%). O uso de terapia anti-HER-2 e terapias hormonais, aponta Antonini, não resultou em diferenças estatisticamente significativas nas taxas de retorno à rotina laboral.
Como destaca o mastologista André Mattar, tesoureiro da SBM, também participante do estudo, os dados mais relevantes associados à retomada do trabalho não dependeram do tipo de tumor ou do tratamento. “Quando fazemos a análise ajustada, os fatores que mais influenciaram essa reintegração ao trabalho foram o apoio do empregador, da chefia e a possibilidade de readaptação funcional”, enumera. “Muitas pessoas terão alguma limitação funcional. Desta forma, ajustes nas atividades, na rotina e nas condições de trabalho são fundamentais.”
De acordo com a pesquisa, trabalhadoras que receberam apoio do chefe ou da empresa após o diagnóstico de câncer de mama tiveram o dobro de chance de retornar às atividades profissionais. A readaptação funcional, quando oferecida pelo empregador, triplicou a probabilidade de reintegração. “Mulheres que retornaram ao trabalho também tiveram melhores resultados em score de qualidade de vida, especialmente no funcionamento físico, da vida social, da imagem corporal e perspectiva do futuro”, pontua Mattar.
O estudo considera barreiras psicológicas, como depressão e ansiedade pós-tratamento, como principais razões para a não retomada profissional (54,5% dos casos), seguidas por sequelas físicas do tratamento oncológico (36,4%). Outro dado de grande relevância destaca relatos de discriminação por parte do empregador como fator associado à menor probabilidade de reintegração no trabalho.
A estabilidade do vínculo empregatício e o acesso a um sistema de saúde ocupacional estruturado mostraram-se protetores importantes para explicar taxas de retorno superiores às observadas em estudos conduzidos no sistema público de saúde. “Gestores públicos e privados precisam entender que políticas de readaptação funcional e suporte psicossocial não são apenas benefícios humanitários. São investimentos que determinam se uma trabalhadora vai ou não conseguir retomar sua vida profissional após o câncer”, conclui Marcelo Antonini.