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Aluno surdo defende doutorado em Linguística na UFSCar

Fernando Cardoso dos Santos tornou-se o primeiro doutor surdo do PPGL

02/08/2024 08:22:01
Aluno surdo defende doutorado em Linguística na UFSCar
Fernando Cardoso dos Santos tornou-se o primeiro doutor surdo do PPGL (Foto: Acervo pessoal)
Aluno surdo defende doutorado em Linguística na UFSCar
Fernando Cardoso dos Santos tornou-se o primeiro doutor surdo do PPGL (Foto: Acervo pessoal)
O aluno Fernando Cardoso dos Santos, professor de Libras (Língua Brasileira de Sinais) da Universidade Federal do Tocantins (UFT), tornou-se o primeiro Doutor surdo titulado pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O trabalho "Perfil sociolinguístico de surdos em municípios com baixa ocupação territorial no estado do Tocantins" foi defendido no último dia 28 de junho de forma remota e teve como orientador o professor Cássio Florêncio Rubio, do Departamento de Psicologia (DPsi) da UFSCar.

A pesquisa de Santos, desenvolvida entre agosto de 2021 e maio deste ano, teve como tema o perfil sociolinguístico de surdos em municípios com baixa ocupação territorial no Estado do Tocantins. O objetivo era conhecer processos fenomenológicos de surdos em regiões distantes de grandes centros urbanos.

"Por ser surdo e experienciar a vida e a cultura de um surdo e com a experiência profissional como docente de surdos desde a Educação Infantil até o Ensino Superior", conta o doutor em Linguística, "tive oportunidade de vivenciar a transversalidade em comunidades surdas situadas em pequenas cidades com menor densidade populacional". Outro fator que motivou o desenvolvimento da pesquisa, segundo o autor, "foi a falsa percepção de que somente a Libras é vista como comunicação junto às pessoas surdas, embora esta ainda não seja dominada pelos surdos das cidades interioranas".

O pesquisador concluiu "que o perfil sociolinguístico dos participantes surdos que residem em municípios com pouca ocupação territorial no estado do Tocantins é múltiplo e diverso, o que impossibilita a tentativa de padronização da forma de comunicação e interação dos atores surdos-surdos e surdos-ouvintes. Diante disso, é preciso ater-se a um mecanismo de políticas linguísticas para garantir essa multiplicidade comunicativa das comunidades surdas locais, com vistas à valorização das formas individuais no uso das línguas de contato e de outras formas de comunicação, respeitando-se a bagagem linguística trazida do seio familiar, embora ela não se constitua em uma língua sistematizada como a Libras".

Para ele, "há muito a ser feito para atender às necessidades dos surdos que residem no interior, principalmente em cidades com pouca ocupação populacional, isso porque percebeu-se que, nessas regiões, a demanda de profissionais e difusão da Libras ainda é muito escassa, bem como ações inclusivas que possam atender aos surdos para além do contexto educacional". 

Para dar andamento à investigação, foram consideradas como variáveis: diversidade, heterogeneidade e multiplicidade de recursos linguísticos e extralinguísticos usados na comunicação dos surdos em diversos contextos interativos. As etapas da pesquisa contaram com o desenvolvimento do projeto, contato com os participantes surdos, entrevista via WhatsApp e presencial, análise dos dados e conclusões.

Conquista inédita

A banca de defesa da tese de Fernando Cardoso dos Santos foi formada pelo orientador, Cássio Florêncio Rubio, docente do DPsi/UFSCar, e pelos demais membros: professora Érica Aparecida Garrutti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Janaína Cabello, professora do DPsi/UFSCar, Caroline Carnielli Biazolli, professora do Departamento de Metodologia de Ensino (DME) da UFSCar, e Sebastião Carlos Leite Gonçalves, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Esta foi a primeira vez que um estudante surdo defendeu uma tese de doutorado no PPGL. O orientador do estudante conta que houve desafios iniciais para acessibilidade e para participação do Fernando em disciplinas, eventos acadêmicos e demais atividades relacionadas ao doutorado. "É importante destacar, entretanto, o grande esforço do Serviço de Tradução e Interpretação em Línguas de Sinais (SeTILS) da UFSCar em atender às demandas. Sempre que acionados, os intérpretes atenderam prontamente às nossas solicitações, nas aulas remotas da pandemia, nas reuniões e até mesmo na qualificação e defesa (esta última, ainda no período de greve dos técnico-administrativos)", elogia o professor Cássio Rubio. Além disso, "nas orientações, os recursos tecnológicos nos ajudaram bastante, com o emprego de legendas durante as videoconferências virtuais. Cabe ressaltar, inclusive, que boa parte do doutorado se desenvolveu à distância, já que o Fernando reside no Tocantins".

"Pela qualidade e disposição de todos os suportes da UFSCar, não percebi grandes obstáculos na realização das aulas remotas, bem como nos demais encontros, que foram mediados pela SeTILS", complementou o aluno. Segundo ele, no Brasil, há vários doutores surdos, em especial nas Universidades que estão atentas às necessidades específicas dos surdos. O doutor em Linguística pela UFSCar aproveitou para deixar uma mensagem às pessoas surdas que queiram seguir seus passos na vida acadêmica e profissional: "Persistência, dedicação e que se mantenham firmes na certeza de que seus conhecimentos são fontes científicas que precisam ser reveladas à sociedade surda e ouvinte".

Fonte: Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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