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 A Fazenda Ibicaba, a família Levy e a comunidade de Cordeirópolis - Portal Cordero Virtual

A Fazenda Ibicaba, a família Levy e a comunidade de Cordeirópolis

10/02/2020 13:46:49
Como sabemos, as terras da Fazenda Ibicaba começaram a ser desbravadas no início do século XIX, mas legalmente ela só foi oficializada em 1817 , quando Nicolau Pereira de Campos Vergueiro obteve uma parte da sesmaria com 800 braças de testada, aumentadas posteriormente com terras de Manoel Ferraz de Campos, José Antonio, Antonio Manoel e 400 braças na sesmaria de Ignacio Barcellos.
 
No local, por mais de dez anos, foi realizada a experiência pioneira da utilização de imigrantes europeus para suprir a falta de escravos em função da proibição do tráfico, utilizando-se do regime de parceria. Após à revolta liderada por Thomas Davatz, em 1856, ainda continuaram a ser contratados imigrantes, quando a partir da administração do filho de Nicolau, o comendador José Vergueiro, eles voltaram a trabalhar em conjunto com escravos. 

A partir da década de 1860, houve interesse dos proprietários rurais da região de Rio Claro em estender a ferrovia até seus domínios, que naquele momento tinha como “ponta de trilho” a cidade de Jundiaí. Em 30 de janeiro de 1868, no Palácio do Governo da Província de São Paulo, realizou-se a primeira Assembleia Geral dos Acionistas da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF), onde foram aprovados seus estatutos e eleita a sua primeira Diretoria Provisória. Em 1869 foi eleita a sua primeira diretoria definitiva. Em 15 de março de 1870, foram iniciadas as obras de construção das linhas.

A construção da estrada foi iniciada em 1870 e, em 11 de agosto de 1872 foi inaugurada a Companhia Paulista, quando o trem chegou à cidade de Campinas.  Em 1876, o trem chegou a Rio Claro, passando por Limeira e foi criada uma estação num local então desabitado, chamado Cordeiro ou Cordeiros . A estação ferroviária propriamente dita só foi aberta ao tráfego em 1878.

Em 1879 falecem o Barão e a Baronesa de Porto Feliz, proprietários das Fazendas Cordeiro e Cascalho e através da Lei nº 96, de 21 de abril de 1880 , elas são transferidas para o Município de Rio Claro, de onde retornarão para Limeira em 1890.

 A povoação de Santo Antonio dos Cordeiros foi criada em março de 1886 por iniciativa de um proprietário local, Manoel Barbosa Guimarães, e ficava colada à Fazenda Ibicaba . Neste ano, um fato notável foi a parada do imperador Dom Pedro II na estação de Cordeiro, em 14 de novembro, em uma de suas viagens pelo país, onde foi saudado por “duzentos homens, moradores na vizinhança, a cavalo, com estandartes de diversos países”. 

Ao conversar com o Comendador José Vergueiro, proprietário da fazenda, por este foi informado que a Ibicaba naquele momento continha 1.700 alqueires, com cerca de 1,2 milhão de pés de café, com 270 colonos, maiores e menores, de nacionalidades diversas, além de 320 escravos adultos, 136 crianças escravas e 27 libertos que continuavam trabalhando no mesmo local. 

Entretanto, logo a situação se tornou crítica. O jornal “A Província de São Paulo”, de 7 de novembro de 1889, a poucos dias da proclamação da República  comunicava o leilão dos bens de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e sua mulher. 

Os bens em praça eram  assim descritos: casa de máquina de beneficiar café, despolpadores, salas para escolha de café, escritório, sala de aparelhar madeira, serras circulares e vertical, moinhos,  vapores e casa para guardar madeira e acessórios, um terreiro para café, com trilhos e wagons; uma casa de moradia, sobrado com pomar e jardim; casa com duas salas e um quarto forrado e assoalhado; uma casa para bilhar, cocheira, depósito, rancho para tirar o leite, casa para carneiros, casa com banheiro de mármore, casas para depósitos, casa para padaria coberta de zinco, casas para colonos, tulha nova para café, tulha velha, chiqueiro, ranchos, casa de vigia, uma “casa para hospital”, casas para cozinha, torre com relógio e sino, catorze casas de madeira para colonos, casas  para colonos e monjolos, avaliados em mais de 115 contos de réis.

Continua o edital informando outros bens em leilão, compostos de: 27 casas para colonos, 20 casas para colonos de qualidade inferior; casa de madeira para moradia do diretor da colônia e outras casas, avaliadas em mais de 38 contos de réis. Faziam parte do lote mais casas de palha para colonos, paiol coberto de palha, casas cobertas de telhas para colonos; três monjolos com casas cobertas de palha e cinco casas de palha para colonos.

Compreendia a propriedade também 50 alqueires de terras, 3.000 pés de café novos, plantações com 32 mil pés, 104 mil pés, 6 mil pés, 12 mil pés e 2.500, espalhadas por toda a fazenda. A parte da Fazenda chamada Tetéa contava com 16 mil pés de café velhos, 6.000 com quatro anos, 3.500 cortados, 7.000 com três anos, 9.000 de dois anos, falhados e a Fazenda Saltinho, com 7.000 pés de quatro anos.

Outras áreas compreendidas na propriedade eram: 125 alqueires de terra, 25 alqueires de mato próximo à Fazenda Laranja Azeda; 10 alqueires entre o valo e o cafezal; 25 alqueires unidos ao cafezal; 5 alqueires nas divisas do Morro Azul; 10 alqueires na divisa com os Ferraz, além de 96 alqueires da Fazenda Tetéa, de terras baixas e ordinárias; no Saltinho, 40 alqueires com alguns pés de café e capoeiras, para o outro lado do Ribeirão Tatu, além de matas existentes nas divisas de Bento Manoel de Barros e no então Núcleo Colonial do Cascalho. O total dos bens em leilão compreendia mais de 470 contos de réis.

Este leilão não parece ter surtido efeito, pois o mesmo jornal publica novamente em 16 de janeiro de 1890 o conjunto de bens em praça, que foram arrematados pela firma José Levy & Simão e o Coronel Flamínio Ferreira de Camargo. A carta de arrematação, documento que oficializava a passagem da propriedade aos novos donos, foi emitida em 20 de janeiro de 1890, marcando o início da história da família Levy como proprietária . 

A saída do Coronel Flamínio foi comunicada por um anúncio no jornal “O Estado de São Paulo” de 22 de julho de 1896, onde se destaca que sua parte foi vendida por mil contos de réis. Não sabemos em qual cartório esta escritura foi feita, e não tivemos acesso a ela na sua forma original. O Comendador José Vergueiro faleceu em 1894, conforme nota do jornal “O Estado de S. Paulo” de 17 de janeiro daquele ano .

Com a mudança de proprietário, não encontramos mais referências à fazenda e seus proprietários durante os primeiros quarenta e cinco anos de domínio da família Levy . As referências posteriores foram encontradas em escrituras do Tabelionato de Notas e Protesto de Cordeirópolis, conforme pesquisas por nós realizadas na década de 1990. 

No entorno da fazenda, as coisas iam mudando: pela Lei nº 645, de 7 de agosto de 1899, foi criado o Distrito de Paz de Cordeiro, com as mesmas divisas do distrito policial (ou subdelegacia) criado nove anos antes . Posteriormente, devido a dúvidas quanto às divisas, elas foram estabelecidas com clareza pela Lei nº 934, de 18 de agosto de 1904 , abrangendo, dentre outras fazendas, a “Ibicaba, de Levy & Irmão”. 

Dizia a lei: “As divisas do districto de paz de «Cordeiro», no município e comarca de Limeira, são as seguintes :« Começam no ponto de encontro das fazendas Santa Gertrudes « (de Rio Claro), Morro Azul, do finado dr. Francisco Rodrigues Jordão, e Ibicaba, de Levy & Irmão, e d'ahi seguem pelas divisas desta  (Ibicaba) com as fazendas Morro Azul, Quilombo do dr. Ezequiel de Paula Ramos, Pedreira, de d. Balbina Amelia de Toledo, Quilombo,
de Manoel Ferraz de Camargo e José da Rocha Ferraz Santo Antonio, de Antonio Nunes dos Santos Monteiro, até á fazenda da SantaOlympia, (Saltinho) do mesmo Antonio Nunes dos Santos Monteiro ; seguem pelas divisas desta (Santa Olympia) com a fazenda SãoFrancisco, de Joaquim Antonio Machado de Campos, até á fazendaIbicaba;seguem pelas divisas desta com as fazendas São Francisco e Itaporanga, do finado capitão Manoel de Toledo Barros, Perobas, do finado capitão Sebastião de Barros Silva e outros, até ao
núcleo Cascalho;- seguem pelas divisas deste com as fazendas Peroba, Santa Thereza do dr. João do Nascimento Machado Portella,Bosque de Bolonha, de Vianna & Irmãos, até ao município de Araras ;seguem, finalmente, pelas divisas do municipio de Limeira com às de Araras e Rio Claro, até encontrar o ponto de partida.”

Dada a grande população da fazenda e a insuficiência das classes existentes no distrito de Cordeiro, foi criada pela Lei nº 1241, de 23 de dezembro de 1910  uma escola masculina e outra feminina na Fazenda Ibicaba. Em pesquisas realizadas no acervo da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, encontramos referências de 1912 a 1988, quando a classe foi fechada e incorporada à Escola Estadual Coronel José Levy. 

A primeira mudança na propriedade da Fazenda Ibicaba foi causada em 1928, quando os herdeiros de Simão Levy: o Major José Levy Sobrinho  e sua esposa, Anna Carolina de Barros Levy, Medina Lydia Levy , o Dr. Martinho Levy  e Jacob Emilio Levy , o Dr. Alberto Simão Levy , Carlota de Camargo Levy e seus filhos Cecília, João Carlos, Célia e Carlos Henrique, venderam ¼ de sua parte para o seu tio, o Coronel José Levy; 6/32 para seus primos Dr. Huberto Levy, Flamínio Levy e Dr. Antonio José Levy  e 3/32 aos seus sobrinhos Zuleika Levy Pereira e Ary Levy Pereira, filhos do Capitão Joaquim Manoel Pereira e de Lydia Levy Pereira. 

Huberto Levy fez curso primário em Petrópolis e Poços de Caldas, seguindo depois para a Alemanha. Terminando o ginasial, formou-se em Engenharia na Escola Técnica de Cothen, também naquele país. Regressando ao Brasil, dedicou-se a atividades agrícolas nas Fazendas Ibicaba e Bombocado. Foi vereador em Limeira. Homenageado no Estádio Municipal que fica no final da Rua Toledo Barros, em Cordeirópolis e em uma rua da Vila Nova Brasília. 
Flamínio Levy estudou no Colégio Anglo Brasileiro em São Paulo e depois na Alemanha, estudando também comércio e finanças. Assumiu a direção da Casa Comissária de Café S.A. Levy em Santos. Foi Presidente da Associação Comercial e Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Santos, além de Presidente do Santos F.C. Em 1967 era proprietário da Fazenda Ibicaba. 

Antonio José Levy estudou nos mesmos colégios dos irmãos e formou-se pela Universidade de Frankfurt. Colaborou com as firmas da família em Santos e São Paulo e era proprietário da Fazenda São Francisco, vizinha à Ibicaba. 

Após a crise do café, a partir da quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, a fazenda continuava com esta configuração. Entretanto, em 13 de junho de 1933  o Coronel José Levy faz escritura de doação, onde descreve que a Fazenda Ibicaba, naquele momento, tinha 1.101 alqueires e 600 mil pés de café, e fazia divisa com a Fazenda Santa Gertrudes, Cordeiro, Cascalho, Fazendas Perobas e Itaporanga, São Francisco, Quilombo e Iracema, esta no então distrito e futuro município de Iracemápolis. A fazenda foi doada para seus filhos Dr. Huberto Levy e sua esposa Johanna Graciela AmEnde Levy,Flamínio Levy e sua esposa, Antonieta de Freitas Levy, Dr. Antonio José Levy e ao Capitão Ary Levy Pereira e sua esposa Maria da Glória Prado Pereira. 

Através do livro de Mario ZocchioPasotto, pudemos verificar que entre 1907 e 1934 o Cel. José Levy teve importante participação e financiamento de obras da Igreja Matriz de Santo Antonio, origem da cidade. Talvez isso explique a escolha da data de 13 de junho para realização da doação de seus bens “in vivo”. 

A primeira citação do representante máximo da família Levy em atividades da Igreja Católica é a sua presença no lançamento da pedra fundamental da “nova Matriz”, em 3 de outubro de 1906 e no “Tríduo Solene” realizado entre 5 e 7 de dezembro de 1907, em que foi “padrinho” junto com sua esposa Amália Levy, falecida em 1910. Ao encerrar-se os trabalhos de reforma, é instalada uma placa comemorativa, com os dizeres: “A.P.R.M. Ao Sr. Coronel José Levy e ao povo o Pe. Leandro Dell´Uomo, Missionário da Congregação de São Carlos, penhorado agradece o auxílio prestado na construção da Matriz. IX-XI-MCMIX” . Em 1912, Levy faz parte da Comissão de Festas à qual agradece o vigário Serafim Augusto da Cruz, em trecho inscrito no Livro Tombo da Paróquia . 

Outra nota interessante é a presença do Coronel José Levy como um dos fundadores da Irmandade de Santo Antonio, aprovado pelo Bispado de Campinas em 1919, ao lado de outros proprietários da cidade, como Lourenço Masutti, João Frattini, Amadeu Stocco e Joaquim Manoel Pereira . 

Em 1921, Levy aparece como membro de uma comissão destinada a auxiliar nas despesas das “Santas Missões”, em companhia novamente do Capitão Joaquim Manoel Pereira, o comerciante Elias Abrahão e o proprietário de uma fábrica de fogos, Francisco Chinnici . 

Uma de suas últimas atividades caritativas foi a de “Diretor Honorário” da comissão executiva para a construção da torre, definida em 18 de agosto de 1934, sendo Presidente Honorário o Dr. Huberto Levy, seu filho e Diretor de obras seu cunhado, o Capitão Joaquim Manoel Pereira, como temos visto em outras oportunidades.  Quando do falecimento do coronel, uma longa citação mostra a grande contribuição financeira realizada em prol da Igreja Católica: 

“A este distinto falecido, muito muitíssimo deve a igreja e a população católica de Cordeiro. Foi ele quem muito auxiliou a construção da casa paroquial, da S.S.C. (Sede Social Católica) e da torre. Além disso, foi o saudoso Coronel José Levy que ofertou à Igreja de Cordeiro, os sinos, o relógio e o ladrilhamento completo da igreja. Os sinos vieram da Alemanha, são de ótima qualidade, harmoniosos; pesam os três juntos dois mil quilos, mais ou menos, e custaram perto de 15:000$000 (quinze contos de réis). O relógio é de quatro mostradores luminosos, com algarismos de ferro e custou 10:000$000 (dez contos de réis). O ladrilhamento ficou em 7:000$000 (sete contos de réis). Todo esse auxílio o Coronel José Levy doou à nossa igreja com a mais piedosa espontaneidade” .

O seu falecimento foi descrito pelos registros da Paróquia de Santo Antonio desta forma: 

“Ele no dia 3 de julho de 1935 adormeceu santamente na paz do Senhor, tendo antes se confessado, comungado duas vezes e recebido o sagrado viático e a extrema unção. (...) Foi rezada a missa de Réquiem do 30º dia pela alma do Coronel José Levy. A igreja ficou literalmente cheia de fiéis, que com suas orações procuravam retribuir o muito que o magnânimo (...) fez pela nossa igreja e pela vila de Cordeiro” .

Mario ZocchioPasotto, em comentários na sua obra que resenha os registros do Livro Tombo da Paróquia de Santo Antonio de Cordeirópolis, resume qual era o efetivo papel do proprietário da Fazenda Ibicaba (1890-1935) no financiamento dos equipamentos necessários ao serviço religioso:

“Uma paróquia pequena e pobre, como tantas vezes é declarado pelos mais diversos personagens, que leva 28 anos para instalar uma caixa d´água e um banheiro na residência paroquial ou trinta anos para construir uma residência decente para o pároco, vive esperando que alguém como o Coronel Levy e outros poucos resolvam fazer o que é preciso (...) enquanto gasta em supérfluos desnecessários ou pelo menos muito secundários.” 

Voltando especificamente à Fazenda Ibicaba, visando permitir a cada um dos herdeiros que dispusesse com liberdade de sua parte, sem a necessidade de autorização dos outros, foi realizada a divisão amigável da Fazenda Ibicaba em 11 de março de 1944  onde Huberto e sua mulher ficaram com 3/8, Flamínio e Antonieta com 1/4 , o Dr. Antonio José Levy com ¼ e o Capitão Ary Pereira e sua mulher com 1/8. Naquele momento, a fazenda tinha 1.003 alqueires, 100 mil pés de café, 25 mil pés de laranja e 100 alqueires de matas nativas. 

Foi com esta configuração que a fazenda estava quando da criação do Município de Cordeirópolis. A articulação para a emancipação do então distrito foi feita por membros do PSP (Partido Social Progressista), vinculado ao então Governador do Estado de São Paulo, Ademar de Barros. Como candidato a Prefeito nas eleições de 13 de março de 1949 , o Dr. Huberto Levy, proprietário da maior parte da fazenda, foi derrotado com 415 votos, com 590 dados ao prefeito eleito, Aristeu Marcicano. 

Realizada a eleição em 13 de março, houve os seguintes resultados, publicados pelo jornal “O Estado de São Paulo” dois dias depois: Aristeu Marcicano, do PSD, recebeu 590 votos, contra 415 do Dr. Huberto Levy, do PSP, com 415 votos. A Câmara ficou dividida em 7 vereadores do PSD, com 501 votos, 5 vereadores do PSP, com 407 votos e 1 vereador do PTB, com 14 votos. Estavam inscritos 1.224 eleitores, tendo votado 1.025 e anulados 13 votos. O prestígio do proprietário da Fazenda Ibicaba não foi suficiente para ganhar a eleição. 

Na eleição seguinte, o seu sobrinho, Dr. Cássio de Freitas Levy iniciou sua carreira política, encerrada em 1977. O político foi vereador, presidente da Câmara e prefeito e faleceu em 1997, sendo dado o seu nome ao prédio que sedia o Legislativo de Cordeirópolis . Nos anos iniciais do município, áreas da família foram desapropriadas para a construção de uma caixa d´água urbana e um dos estádios municipais . 

Cássio de Freitas Levy foi prefeito em duas oportunidades (1953-1957 e 1961-1965) , tendo realizado diversas obras necessárias para aquele período, inclusive promovido a própria expansão urbana da cidade, com seu loteamento Vila Nossa Senhora Aparecida. Os moradores mais antigos ainda se referem ao local como a “Vila do Cássio”... 
Durante os quatro anos seguintes, exerceu o mandato o prefeito Jamil Abrahão Saad, e em 5 de março de 1961 ocorreram as eleições para Prefeito, Vice-Prefeito e Vereadores de Cordeirópolis, que deveriam tomar posse no dia 27 do mesmo mês. Apresentaram-se então como candidatos, pela coligação composta dos partidos UDN (União Democrática Nacional), PSD (Partido Social Democrático) e PDC (Partido Democrata Cristão) o Dr. Cássio de Freitas Levy, para Prefeito, e o empresário Luiz Beraldo, como Vice-Prefeito. Do outro lado, estava o ex-presidenteda Câmara Bento Avelino Lordello, tendo como vice AngeloBetin, que concorreram pelo PTN (Partido Trabalhista Nacional).

Vitoriosa a chapa liderada pelo Dr. Cássio, começou seu segundo mandato. Em função do crescimento da cidade, com o surgimento da Vila Nova Brasilia e da Vila Santo Antonio, aPrefeitura faz novo empréstimo com a Caixa Econômica do Estado de São Paulo (CEESP) para execução do serviço de abastecimento de água, com prazo para pagamento em quinze anos, com juros e garantia de rendas. 

A população urbana de Cordeirópolis ainda era menor que a rural na primeira parte da década de 1960 , mas passou a ser maior na segunda parte, fato motivado pelo êxodo rural e pelo crescimento econômico das empresas de fiação, torção e tecelagem de seda natural e sintética, que absorviam mão de obra feminina, enquanto a masculina era direcionada para a indústria de papel e papelão, além do crescimento vegetativo positivo existente. 

A demanda por habitação fez com que o Poder Público adotasse, como primeira medida, a expansão do perímetro urbano no final deste período. Em 31 de maio de 1967 foi editada a Lei nº 486 , que aprovava o Plano Diretor e Urbanização, de acordo com a planta do perímetro urbano, para que futuramente venham a surgir novos loteamentos no prolongamento da cidade, não modificando a sua estética”. Este texto, que nunca foi seguido e sequer se sabe onde se encontra o original, só foi revogado pelo atual Plano Diretor, de 2011. 

O único setor da cidade que não tinha tido qualquer avanço sobre a área rural era a Zona Sul, representada pela Fazenda Ibicaba. A propriedade já tinha sido rasgada pela Rodovia Washington Luiz na década de 1950, deixando uma pequena parte na zona urbana ainda em forma de sítio. 

A Fazenda Ibicaba começou a ser derrotada pela expansão do núcleo urbano em 1968, quando pela Lei nº 537, de 4 de setembro, foi autorizada a desapropriação de área de propriedade de Johanna Graciela amEnde Levy para incorporação ao patrimônio do município da Praça de Esportes Levy, atual Estádio Municipal Dr. Huberto Levy  e quando foi autorizada a desapropriação de área de herdeiros e sucessores da Fazenda Ibicaba para criação de loteamentos.

A passagem da década de 1960 para a de 1970 representou a confirmação do processo de crescimento e urbanização de Cordeirópolis, quando a população urbana superou definitivamente a rural, gerando pressões para a administração pública, especialmente na área da habitação e do abastecimento de água .  A cidade cresceu, aumentaram os equipamentos públicos e as necessidades da população, obrigando à ação do Poder Público. No fim deste período, Cássio de Freitas Levy encerra sua carreira política. 

De acordo com a enciclopédia “Expo Nacional dos Municípios 1975/1976 ”, editada pela Rede Municipalista de Divulgação e Imprensa, o então vereador Cássio de Freitas Levy (Legislatura 1973-1976) contava com a seguinte biografia:

“É natural de Santos, SP, onde nasceu a 1º de abril de 1917, filho de Flamínio Levy e Antonieta de Freitas Levy. Está casado com D. Nely Masutti Levy, tem seis filhos. Radicou-se em Cordeirópolis em 1950, onde se dedica à agro-pecuária, proprietário que é da Fazenda Ibicaba. Formou-se advogado pela Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Foi prefeito de 1953 a 1957 e de 1961 a 1965. Foi também vereador por quatro legislaturas (...)”

O fim de sua vida pública coincide com a venda da Fazenda Ibicaba, que é descrita assim pelo pesquisador limeirense José Eduardo Heflinger Jr.:

“Em 1976, a família Levy, depois de ter desmembrado a Ibicaba, na época com mais de 1000 alqueires, vendeu uma rata (sic) de 300 alqueires, que abrigava a sede, tulhas, casa de máquinas, terreiros, mirante, os lagos, algumas casas de colonos e um belo trecho de mata à família Carvalhaes, oriunda de Minas Gerais. (...)” 

Assim se encerra um longo e relevante período da Fazenda Ibicaba, que com certeza será melhor conhecido quando forem disponibilizados os livros nela arquivados, com registros a partir de 1890, cuja digitalização está sob a responsabilidade dos pesquisadores Bruno Witzel de Souza na Alemanha e Leonardo AntonioSantin Gardenal , que compuseram a comissão organizadora do Colóquio Internacional Ibicaba 200 Anos em 2017. 

BIBLIOGRAFIA:

BUSCH, Reynaldo Kuntz. História de Limeira. Sociedade Pró-Memória, Limeira, 2007.
FORJAZ, Djalma. Senador Vergueiro, sua vida e sua época. São Paulo, Officinas do DiarioOfficial, 1924
HEFLINGER JÚNIOR, José Eduardo. Ibicaba: o berço da imigração europeia de cunho particular (textos português/alemão).Unigráfica, Limeira, 2007
PASOTTO, Mario Zocchio. Santo Antonio de Cordeirópolis, editora do autor, s/d.
TAMIAZO, Paulo César. “Revivendo a História”, coluna do site “Cordero Virtual”, Cordeirópolis, 2013

Fontes consultadas:

Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Legislação Estadual 
Diário Oficial do Estado de São Paulo
Câmara Municipal de Cordeirópolis, Leis Municipais

 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo César Tamiazo - Historiador - MTE nº 713/SP
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis - https://orcid.org/0000-0003-2632-6546
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