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 Vergueiro, Ibicaba e o regime de parceria na imprensa (I) - Portal Cordero Virtual

Vergueiro, Ibicaba e o regime de parceria na imprensa (I)

18/09/2019 11:45:02
Em memória dos 160 anos de falecimento do Senador Vergueiro (18-9-1859)

Graças à impressionante coleção de jornais digitalizados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, tivemos acesso a uma grande quantidade de informações, que seria impossível ter acesso, caso esta iniciativa não tivesse sido tomada. 

Visando rememorar os 160 anos do falecimento do Senador Vergueiro, ocorrido em 18 de setembro de 1859, vamos recuperar algumas informações de interesse sobre o tema, ligando as citações sobre Vergueiro, sobre a Fazenda Ibicaba e sobre o sistema de parceria no período imperial brasileiro. 

A recuperação do trabalho feito por Vergueiro em sua Fazenda Ibicaba, situada em Cordeirópolis, Estado de São Paulo, e que até 1948 pertencia a Limeira, deve-se primeiramente à ação de Sérgio Buarque de Holanda, que divulgou o livro de Thomas Davatz, imigrante suiço que liderou o motim dos suiços na localidade e expôs as condições de trabalho nas fazendas da Província na segunda metade do século XIX e depois ao Prof. Dr. José Sebastião Witter, que a partir de um só livro de contas correntes da fazenda, produziu sua tese de mestrado há cinquenta anos e inseriu o tema definitivamente na história e historiografia do Brasil. 

Nos últimos anos, tem-se desenvolvido uma produção historiográfica em Limeira, através do pesquisador local José Eduardo Heflinger Jr., que com apoio da iniciativa privada, tem feito descobertas que o próprio meio acadêmico não tinha feito neste período. 

Contribuindo para a disseminação de informações relacionadas ao passado de nossa região, vamos recuperar os textos encontrados nos diversos periódicos do século XIX, em que constam informações sobre o Senador Vergueiro, a Fazenda Ibicaba e o regime de parceria. 

A gênese da iniciativa de Vergueiro, que representou um favorecimento do particular com verbas públicas, é melhor descrita no relatório apresentado pelo Presidente da Província de São Paulo, José Antonio Saraiva, de 15 de fevereiro de 1855, publicado em diversas edições do Correio Paulistano. 

Dentro do tópico “Colonisação”, o período posterior à década de 1840 é chamado de “Segunda Época” e destaca-se que “deliberando o Governo Imperial mandar buscar à Europa e Ilha da Madeira colonos a fim de suprir a deficiência de braços para a agricultura, expediu à Presidência da Província pelo Ministério do Império o Aviso de 25 de Fevereiro de 1846, mandando oferecê-los às pessoas que os quisessem receber, e com especialidade ao Senador Vergueiro”. Uma iniciativa restrita a uma só pessoa teve fumos de legalidade, mas não disfarçou que tinha não tinha objetivo de beneficiar à coletividade. 

Em consequencia deste edital, foi realizado contrato com a sociedade Vergueiro & Cia., entregando-se 423 colonos alemães vindos por conta do Governo Imperial, ficando as despesas de transporte por conta da firma. A Colônia Senador Vergueiro começou, então, com 426 colonos e um “pequeno resto de portugueses” em julho de 1847. 

Como acontece desde muito tempo, a empresa Vergueiro não conseguiu honrar o prometido, como se vê de publicação do jornal “Correio Mercantil” do Rio de Janeiro, de 20 de fevereiro de 1849, onde o Ministério da Fazenda, por expediente de 12 do mesmo mês, onde foi comunicado à Tesouraria de São Paulo, “em conformidade do aviso da Secretaria do Império, de 19 de janeiro, que em atenção ao que representou o negociante José Vergueiro, lhe foi prorrogado por mais um ano o pagamento de uma das letras, que ele aceitou pela quantia de 11 contos de reis e mais adições constantes do aviso de 7 de julho de 1847, pelas despesas com a passagem, gastos e etc com os colonos mandados engajar na Alemanha. 

De acordo com o Relatório da Presidência da Provincia de São Paulo de 1855, “em virtude deste oferecimento e subsequente contrato celebrado com a sociedade Vergueiro e Cia, foram entregues os colonos, e a importância das despesas de transporte somaram no total 32 contos de reis, que seriam pagos em três prestações: em 1849, 1850 e 1851. Como se vê, houve dificuldade em se pagar a primeira parcela do empréstimo, rolando-a para o ano seguinte. 

Uma nota no jornal “Correio Mercantil” do Rio de Janeiro, em 24 de outubro de 1851 dava conta da principal atividade da firma Vergueiro & Cia, criada para lucrar com a introdução de imigrantes no País para os fazendeiros prejudicados pela proibição do tráfico de escravos. Diz a notícia: “Tendo os abaixo assinados estabelecido nas diferentes partes da Europa agências próprias para promoverem a vinda de colonos úteis à agricultura e indústria de nosso país, com especialidade para a Província de São Paulo, acham-se habilitados a satisfazer qualquer encomenda que a este respeito lhe for feita. Comprometem-se a dar pronta solução a quaisquer propostas e prestarem toda a atividade para leva-las à execução no menor tempo possível, assim como dar toda a informação pedida, segundo o conhecimento que têm adquirido pela prática de quatro anos.” Como se vê, o interesse principal da firma não era a introdução de colonos, e não especificamente a expansão do regime de parceria por conta própria. 

Nos jornais disponibilizados pela Biblioteca Nacional, a edição de 11 de julho de 1851 do mesmo Correio Mercantil publica uma resposta do Senador Vergueiro a um jornal chamado “Correio da Tarde”, que teria reproduzido correspondência de outro jornal “Vinte e Nove de Setembro”, desabonando a colônia de Ibicaba. Em sua resposta, Vergueiro disse que à parte as “insinuações pessoais”, as contas são “justas anualmente”, a escrituração é clara, o colono pode conhecer o seu deve e haver na hora que queira. Disto se percebe que, menos de quatro anos após o seu início, a experiência da parceria na Fazenda Ibicaba já gerava atritos. Quanto a estes, ele justifica: “Sem dúvida tem havido algumas desinteligências parciais, nem era humanamente possível não as haver no período de quatro anos com 360 pessoas residentes em um logar sem a presença de uma autoridade que as comprima e raras vezes a do dono do estabelecimento para evita-las, mas todas elas se tem conciliado amigavelmente”.  Talvez não fosse bem assim. 

Em 27 de agosto o texto é publicado novamente e o que transparece de início é a redução do número de componentes da colônia, que teria começado quatro anos antes com pouco mais de 420 pessoas. Alguns dias antes, no dia 15, é publicado um anúncio que informava estar à venda “no escritório da empresa de colonização” a obra “Estudos sobre a colonização ou considerações sobre a colônia Senador Vergueiro”, publicada por Charles Perret-Gentil, consul geral da Suíça, além da organização de uma “companhia para promover a colonização e dirigi-la convenientemente”, para a qual o próprio cônsul receberia as propostas e realizaria ajustes preliminares com os fazendeiros. Parece que os particulares estavam ganhando muito com a exploração dos imigrantes nas colônias de parceria. 

No início de 1852, a imprensa discute o problema da mão-de-obra no país em função da ilegalização do tráfico internacional de escravos para o País, e o redator do Correio Mercantil reclamava que o Brasil estava “privado de braços escravos e de um sistema judicioso de colonização”, onde nenhum passo era dado a respeito de resolver o problema, “a não ser o “sistema de colonização seguido pelo ilustre e venerando ancião o senador Vergueiro, que tem vingado e parece que vai ser seguido por alguns fazendeiros da província”. Diz o articulista que o governo “iludiu inteiramente os fazendeiros, que à vista da lei esperavam os socorros do Tesouro, esperavam em breve tempo receber em suas fazendas colonos úteis, para o que tinham feito preparativos com dispêndio de capitais e de trabalho, que ficaram inutilizados e talvez perdidos”. Mais uma vez, o capitalismo de zero risco estava em ação no Brasil. Não deixa de ser notável o senador, com a avançada idade de 75 anos, ainda estar se preocupando com estas questões. 

No Relatório da Presidência da Província de 1852, o tópico sobre a Colônia Senador Vergueiro, conforme publicado no jornal “Aurora Paulistana”, da primeira semana de maio,  indicava que “a colônia [Ibicaba] vai prosperando, posto que sem todo o desenvolvimento e extensão do seu programa; o sistema de associação e parceria parece justificado pela experiência, porque outros fazendeiros ricos vão a seguir (…); a dita Colônia é digna de proteção para que ao menos seja estudado e conhecido praticamente este sistema, que ainda não chegou a extensão de que é suscetível e que talvez poderá ser adotado como normal com as modificações que convierem.” Ou seja, uma inovação à margem da lei que contava com a dúvida da administração pública. 

Uma pequena nota no “Correio Mercantil” de 2 de maio de 1853 indicava que, apesar das críticas, a iniciativa da Colônia de Ibicaba continua trazendo gente: Foi informado que no dia anterior, dentre as saídas de navios do Porto do Rio de Janeiro, constava “Santos – Vapor Rio de Janeiro (…) e 32 colonos portugueses para a colônia do Senador Vergueiro”.

O mesmo jornal, citando a Revista Commercial de Santos, informava que em 28 de julho teria fundeado “em nosso porto a barca portugesa  Caridade, proveniente do Porto, trazendo 298 colonos portugueses, mandados vir pela casa dos Srs. Vergueiro e Comp. Consta-nos que esta gente, consistindo de numerosas famílias, formarão os núcleos de três novas colônias nesta província, e cremos que jamais chegarão a este porto emigrados desta natureza tão escolhidos como estes.” 

Mas não é só isso: a firma Vergueiro & Cia estava expandindo suas atividades, de acordo com publicação do Tribunal do Comércio do Rio de Janeiro, segundo o “Correio Mercantil” de 9 de junho de 1854, onde ela, “firma social estabelecida na cidade de Santos, provincia de S. Paulo” foi matriculada naquela repartição para o “comércio de comissões”, isto é, comercialização de café como “casa comissária”. 

O destaque neste período é uma publicação de 11 de novembro do Correio Mercantil, em que um trecho do Relatório do Presidente da Província do Rio Grande do Sul dá um resumo da situação em que se encontrava a disputa dos dois modos de atrair imigrantes à lavoura no Brasil: 

“Dois sistemas de colonização se disputam hoje no império: o primeiro fundado sobre o princípio da parceria, isto é, mandarem os proprietários contratar e transportar colonos para trabalharem em suas fazendas e dividir-se o produto da propriedade em uma certa porção entre o proprietário e o colono. Este sistema foi iniciado pelo sneador Vergueiro nma província de S. Paulo e tem sido seguido por outros fazendeiros da mesma província e da do Rio de Janeiro; o segundo é o sistema de pequena propriedade, ou aquele pelo qual o colono, adquirindo terras, instala-se nelas e as cultiva por sua conta. 

O primeiro, que não é senão um meio de transição para se chegar ao segundo, pôde ser aplicado com vantagem naquelas províncias cujas propriedades demandam reunião de braços, e cujos produtos contém tanto valor que pode suportar a partilha dos lucros. Nas fábricas de açúcar e nas fazendas de café será ele por ora o único admissível, mas não poderá ser aplicado a esta província, cuja produção nem demanda reunião de braços nem é tão valiosa que os lucros possam ser divididos (...)” Este é um ponto a ser considerado. 

 A Vergueiro  & Cia continuava a diversificar seus negócios, desta vez com intermediação de mão de obra para os serviços públicos. De acordo com o Correio Mercantil de 3 de janeiro de 1855, refletindo reportagem original do Correio Paulistano, “consta-nos que o governo da província acaba de ter informações de Portugal, Suiça e Alemanha acerca do engajamento de operários para o serviço das estradas da província.”

“Em consequencia dessas informações, sumamente favoráveis às vistas da administração, encarregou o Exm. Sr. Presidente à Casa Vergueiro & Comp de mandar contratar nos países acima referidos até 350 trabalhadores, no número dos quais entrem trinta calceteiros, vinte canteiros, dez pedreiros, alguns ferreiros e carpinteiros, assim como inspetores que dirijam o serviço e sejam entendidos nos trabalhos dos caminhos dos seus respectivos países”. 

Em 24 de fevereiro, o Correio Mercantil publica em partes o Relatório da Presidência da Província de S. Paulo, onde na parte “Colonização” destaca-se a celebração de um contrato com a casa Vergueiro e Cia. para a introdução de mil colonos, ao invés de quinhentos. O importante é a transferência de recursos públicos em benefício do particular, sem pensar no interesse da coletividade, o que é mostrado nos valores destinados: 

“Recebendo a Casa Vergueiro por empréstimo sem juro a quantia de 25 contos de reais anualmente, reversível aos cofres provinciais em três anos, para importar mil colonos, recebe uma subvenção anual de 1 conto e 500 mil reis (...)”. Ainda assim, o presidente considera o auxílio “insignificante”, sem não antes criticar as vantagens particulares que Vergueiro estava tendo: “O auxílio que prestais à Casa Vergueiro, (…) não lhe permitindo incumbir-se da importação de colonos sem dispensar uma comissão pelo trabalho que tem de agenciar sua vida, não favorece absolutamente o colono, não melhora em coisa alguma a sua situação e, por conseguinte, não anima a emigração e nenhuma influência pôde exercer em seu desenvolvimento e em sua sorte.”

Continuando, o presidente destaca que “a proteção dada aos colonos diretamente serve mais à colonização e à agricultura do que os favores feitos àqueles incumbidos de sua importação ou aos agricultores que os produram, porque já é um favor para os primeiros os lucros que pode tirar do desenvolvimento da emigração e para os últimos o trabalho livre para o aproveitamento dos seus terrenos incultos.” E sugere uma nova forma de auxiliar o trabalhador: “o governo imperial está disposto a dar uma subvenção a cada colono que se estabelecer na agricultura.” 

O destaque na imprensa mostra que a principal atividade da Casa Vergueiro seria a intermediação de mão de obra, além do próprio “regime de parceria”; no “Correio Mercantil” de 10 de março de 1855 era mostrado que “o Sr. Dr. Cândido Mendes de Almeida, comissionado pelo presidente do Maranhão, acaba de contratar com o Sr. José Vergueiro, chefe da casa comercial Vergueiro Comp., de Santos, a introdução de cento e cinquenta colonos para a província, podendo posteriormente essa introdução elevar-se a quatrocentos. 

“Afirmam que também o Sr. José Vergueiro tem dirigido a todos os presidentes de província uma circular, na qual oferece o seu préstimo para a introdução de colonos nas respectivas provincias. A casa do Sr. Vergueiro, estando de há muito envolvida em tais empresas, oferece sem dúvida garantias e precedentes ao exato cumprimento destes contratos.”

Nos jornais pesquisados, com o nome Vergueiro, não aparecem entradas nos anos de 1856 a 1858. O que se destaca é a preservação de um exemplar do jornal “Correio da Tarde”, do Rio de Janeiro, de 17 de janeiro de 1859, em que se destaca, sob o título “Espelho” a comemoração do aniversário do Senador Vergueiro, que seria seu último. Diz a nota: “No dia 20 de dezembro completou o Sr. Senador Vergueiro 80 anos de idade. Nesse dia acharam-se na sua fazenda do Ibicaba para festejar o aniversário do respeitável ancião vinte indivíduos, entre filhos e netos do mesmo, este número forma 2/3 de sua descendência.” 

Segue a descrição da fazenda naquela época, de acordo com a Revista Comercial de Santos: “a casa de morada sobressai em uma ala de edifícios de 130 braças de extensão; imediato ao grande pátio há um lago artificial, e em lado oposto começa uma extensa linha de dezenas de casas de colonos, com intervalos para quintais, que termina em um grupo maior com ruas alinhadas; atrás das casas continua-se a observar extensa planície coberta de cafezais; em frente estão as pastagens, seguem-se as matas sobre as quais se estende a vista em largo horizonte.” 

Importante é a descrição seguinte. “A população da fazenda compõe-se de mais de mil pessoas, compreendendo perto de duzentos escravos.” Veja que nesta época, já haviam se passado mais de dois anos da revolta dos colonos, e, mesmo assim, ainda havia escravos. Outro ponto do texto destaca: “No terraço, que fica sobre a entrada da casa de morada, flutuava na manhã do dia 20 a bandeira brasileira, e em frente ao longo do muro do grande pátio flutuavam as bandeiras portuguesa, dinamarquesa, suíça, prussiana, francesa, belga e alemã, simbolizando as nacionalidades dos colonos; os repiques dos sinos, os rojões, as girândolas e uma orquestra regular se faziam ouvir, assim como os vivas.”

Para compor o momento de festa, os empregados devem ter sido incentivados a oferecer seus presentes: o mestre da marcineria ofereceu uma cadeira de balanço, os oleiros, duas açafatas e várias quinquilharias de louça vidrada, o fundidor um cálice de metal de composição e uma medalha com os respectivos cunhos (…). Após ao jantar onde foram servidos os hóspedes e a família do senador e foram convidados os colonos para se servir da mesa. 

De acordo com o cronista, “todos os colonos de ambos os sexos (…) estavam no pátio e aí se dividiram em grupos de dança: (…) os portugueses com sua viola, os pretos, que nesse dia foram aliviados do trabalho, também puseram em prática as danças africanas com grande entusiasmo”. Ressalvando que a mão de obra imigrante sempre trabalhou em conjunto com os escravos, e não como forma de substituição da mão de obra servil. 

Finalizando a reportagem, foi dito que “à noite houve baile em casa, em que tomaram parte a família do Senador e dos seus hóspedes com as dos colonos de todas as nações, que puderam entrar, continuando no pátio os vivas, aplausos e rojões”. Seria a última comemoração do vetusto senador. 

Nos anos seguintes, com o desparecimento do proprietário, passam a haver citações indiretas. Uma de grande curiosidade é a nota enviada à Revista Comercial de Santos por alguém de Limeira que dizia sobre a chegada de 35 famílias de colonos alemães em agosto de 1862, vindos de Antuérpia, e “mandados pela Casa Steinmann e Cia”. 

Interessante é a opinião do cronista que dizia: “A chegada destes novos colonos, mandados engajar pelo Sr. José Vergueiro, tem causado certa admiração a todos que sabem quanto este senhor tem sofrido e a guerra que lhe fizeram”. E o mais importante: “É um ensaio do que o Sr. José Vergueiro hoje faz sobre bases e contratos novos, dos quais desapareceu a parceria, que tantas queixas provocou, e contra a qual tantos inimigos se levantaram.” 

Outro ponto interessante se relaciona à administração da fazenda após o falecimento do Senador: “Não é só a colonização que o Sr. José Vergueiro tem procurado desenvolver nas fazendas de Ybicaba e Angélica: também tem muito trabalhado para o desenvolvimento de máquinas, entre as quais se distinguem algumas para beneficiar o café (…). Na fazenda monta-se presentemente uma máquina a vapor da força de 8 cavalos para despolpar e beneficiar o café.” 

Por fim, a reportagem destaca o suicídio de Henrique Braun, ocorrido em 8 de agosto, um dos primeiros colonos que vieram para a Ibicaba e que foi depois diretor da colônia do Senador Souza Queiroz, tendo finalmente comprado um sítio, onde deu cabo à própria vida. 

Na década de 1860, após o desastre da experiência da parceria, percebe-se que o uso de escravos na lavoura aumentou, em função das dificuldades na introdução de novos imigrantes. Prova disso é o anúncio de “escravo fugido” impresso no “Diário de São Paulo” em 6 de outubro de 1867, que dizia ter fugido em 25 de setembro da Fazenda Ibicaba, o escravo Antonio, comprado cinco dias antes, com a seguinte descrição: “7 palmos mais ou menos, peito largo (2 palmos e meio), cor cabra, cabelo liso e cortado de novo, boca pequena, olhos pequeninos e olhar de índio, sem barba; reservado, fala pouco, braços grossos”, dentes bons e cortados “como usam no Norte”, bem feito de pernas e pés. 

Continua o anúncio: “Levou um saco de couro de carneiro com pele, camisola de baeta vermelha, aberta adiante, calças de riscado e camisa de chita, assim como camisa e calça de algodão com a marca “Ybicaba – Antonio Ceará”, cobertor escuro, chapéu de palha e carapuça vermelha. Quem o prender e entregar à Rua Direita nº 28 ou participar na fazenda do Ybicaba sua prisão será bem gratificado”. As condições deviam ser bastante rudes para forçar um escravo, em menos de cinco dias de atividade na fazenda, ter se rebelado a ponto de fugir – e de causar prejuízo ao seu proprietário. Ou talvez ele nem fosse mais escravo antes de vir pra São Paulo... 

Mesmo que José Vergueiro tenha publicado em 1870 no Correio Paulistano sua análise sobre a produtividade das famílias imigrantes que ainda trabalhavam na sua propriedade, a impressão geral sobre a Fazenda Ibicaba era diferente. 

Os debates da Assembleia Legislativa Provincial do dia 2 de março de 1871 foram publicados na edição de 11 do “Diário de S. Paulo” e a situação da colônia foi discutida entre os deputados Egydio e Chaves, dentre outros. Dizia o primeiro: 

“(...) a colônia mais importante da província de S. Paulo (…) está decadente e a mais importante é a do Senador Queiroz. Qual a razão, (…) porque o Sr. José Vergueiro, dono daquela fazenda, homem eminentemente liberal, de coração filantrópico, homem que herdou, neste ponto, os sentimentos de seu pai, (…) viu-se obrigado a despedir seus colonos e substitui-los por escravos? (…) Não foi outra senão esta: não poder-se contar com o auxilio de uma legislação aperfeiçoada. (…) Assim, aquela colônia, que apontei como uma das mais importantes, está hoje trabalhando quase que só com escravos.” 

Uma das coisas que pouco se viu nesta pesquisa, especialmente no período da imigração, foi a presença de escravos na Fazenda Ibicaba, mesmo que eles tenham existido. O que se repetiu neste período pós-Senador Vergueiro foi o anúncio de “Escravo fugido”, desta vez pelo Diário de São Paulo de 31 de agosto de 1871. 

De acordo com o anúncio “fugiu da Fazenda do Ybicaba, a 27 do corrente, o crioulo Ricardo, de idade de 25 anos, alto e magro, cara comprida, nariz batido, testa pequena, cabelos não muito grenhos, não tem barba; cor fula, pernas compridas e é gago. Quem o apreender e entregar no Ybicaba (…) receberá 100 mil reis; se o colocar em alguma cadeia, ou entregar em São Paulo a Luiz Vergueiro, receberá 50 mil reis de gratificação.” 

Dos “outros tempos” da Fazenda Ibicaba dão mostra o anúncio fúnebre de Samuel Kleiner, falecido em Rio Claro, conforme edição do Diário de São Paulo de 8 de fevereiro de 1873. Segundo a nota, Kleiner nasecu na Suiça em 28 de outubro de 1819, casou-se em 1842 e emigrou para o Brasil em 1856, residindo até 1864 na Fazenda. Em 1864, mudou-se para Rio Claro, onde faleceu no dia 7 de janeiro. 

Em 1846 Samuel era maquinista chefe de um estabelecimento de fiar algodão e na Ibicaba foi mestre das oficinas, levando a cabo a construção de máquinas de beneficiar café. Posteriormente, montou em Rio Claro um estabelecimento movido a vapor com equipamentos fabricados por ele e por seu filho, que estava tocando quando do seu falecimento, deixando três filhos e uma filha. 

A reportagem encerra uma frase que ressalta outra sua característica: a de evangélico. Segundo o último parágrafo: “Vamos, levemos hoje no cemitério dos protestantes, sua morada funérea, as coroas de nossas saudades e roguemos a Deus, a cujo lado se acha, o conforto da resignação para sua extremosa família.” 

Encerramos este artigo ressaltando que ele é mais uma forma de descobrir novas informações sobre a Fazenda Ibicaba e a família Vergueiro, especialmente nos jornais disponibilizados pela Biblioteca Nacional em seu site. Ainda haverá outros que irão mostrar os relevantes dados recuperados, para no futuro comporem efetivamente a análise adequada dos 200 anos desde o fim da concessão das sesmarias no Brasil e, em consequencia, no Estado de São Paulo. 
Fazenda Ibicaba (1876) - quadro de Henrique Manzo - acervo do Museu Paulista da USP - fonte: Wikipedia
Fazenda Ibicaba (1876) - quadro de Henrique Manzo - acervo do Museu Paulista da USP - fonte: Wikipedia
 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo César Tamiazo - Historiador - MTE nº 713/SP
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis - https://orcid.org/0000-0003-2632-6546
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