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O barco, a proa e a popa

22/03/2018 10:56:12
Gostar de lados diferentes de um mesmo barco é da natureza humana, uns gostam da proa (frente), outros da popa (trás), mas o que poucos percebem é que, na hora da fome, todos vão ao refeitório, que fica na meia-nau.

Assim tem sido a vida dos brasileiros, que buscam explicar por que tem faltado tanta coisa na dispensa da cozinha. Um lado acusa a postura assistencialista adotada por uma linha de partidos que demonizam a livre iniciativa, outro lado critica a liberalidade adotada por outros partidos, que defendem pouco estado e mais controle do que se gasta com o social.

A razão não está com nenhuma das pontas; a razão está onde todo mundo se encontra – lá no refeitório. É lá que que as coisas da vida são compartilhadas, onde a barriga dói e todos percebem que, se não fosse esse lugar em comum para suprir a necessidade básica dos dois extremos, o barco não funcionaria.

Estamos numa batalha de ideologias travadas num só conceito, sem qualquer abertura para uma dialética que tente abortar alguns equívocos sobre a ideia que se defende, equívocos naturais de qualquer ideologia, diga-se de passagem.

Ou é negro ou é branco; ou é rico ou é pobre; ou é hetero ou é homo, ou é católico ou é evangélico, ou é Heley de Abreu ou é Marielle Franco, ou é proa ou é popa.

A palavra “ou” tem indicado muito mais exclusão do que alternância e isso está prejudicando o barco como um todo. Nessa linha de exclusão, as pessoas estão deixando de frequentar o refeitório, numa crise de orgulho e ódio que não se explica por si só, mas apenas olhando a individualidade de cada um e seus próprios interesses.

Não frequentar o refeitório está comprometendo, aos poucos, a boa condução do barco (a fome aperta, a falta de conversa amarga, não dialogar azeda) e quando tudo isso aflora coletivamente, o barco perde o rumo e fica à deriva, muitas vezes sem ninguém perceber.

Já ficamos à deriva por longos anos, quando só a proa ditava as regras e, ignorando o refeitório, tentou montar toda a estrutura apenas numa ponta da embarcação – o resultado foi lastimável e todo mundo ficou sob o risco de um naufrágio lamentável, onde capitão e alguns imediatos se salvariam pisando na cabeça do resto da tripulação. 

***Fomos salvos por um grampo telefônico que lançou a âncora.***

Agora parece que a popa tenta copiar aquele extremismo antes adotado pelo outro lado, sem parecer ter aprendido alguma lição com os erros cometidos e suas consequências, sem parecer entender que o barco é o mesmo para todos e - definitivamente -  os interesses individuais não cabem mais na cabine de comando.

Vamos frequentar mais o refeitório, principalmente por que é lá que os problemas são apresentados para uma visão comum, da proa e da popa. A tripulação agradece e a âncora, com sorte, estará a postos novamente.
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Politiconomia
Por: Marcelo L. Braga
Espaço para trazer assuntos da economia e da política, ajudando na formação de opiniões e cidadania.
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