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 Notícias sobre Cordeiro no jornal “O Comércio de São Paulo” (1896-1908) - Portal Cordero Virtual

Notícias sobre Cordeiro no jornal “O Comércio de São Paulo” (1896-1908)

14/10/2017 07:23:15
Outro jornal que foi preservado e digitalizado pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e que circulava no período entre o final do século XIX e o início do XX foi o “Comércio de São Paulo” que, segundo informações, tinha viés monarquista, mesmo após o início da República. 

A primeira reportagem relacionada a Cordeiro está na edição de 7 de fevereiro de 1896, onde, na coluna reservada a notícias de Limeira, provenientes de um correspondente, se destacava que: 

“Em Cordeiros apareceram alguns casos de moléstia suspeita; ali esteve uma comissão do Governo, a qual não veio a esta cidade [Limeira] por não haver necessidade, visto o delegado de higiene ter tomado todas as providências.”
Outra nota interessante do período é a matéria paga, incluída na “Seção Livre” do jornal, onde se chama a atenção para a nova empresa que iria suceder a “Viúva Quinteiro & Cia”, que segundo a publicação tinha negócios principais com São Paulo, Santos e Campinas. 

Pela nota, de acordo com “contrato celebrado e legalizado com as formalidades da lei comercial”, foi constituída, em 1º de janeiro de 1899, a nova firma – Firmino Bueno & Cia., assumindo toda a responsabilidade pelo ativo e passivo, continuando no mesmo ramo de negócio: fazendas, ferragens, secos e molhados e serraria. 

Quinteiro e Bueno são famílias pioneiras na Povoação de Cordeiro, e são citadas desde 1890, menos de cinco anos do início da Capela de Santo Antonio dos Cordeiros, das quais não existem, até prova em contrário, nenhum descendente na cidade nos dias atuais.

Outra pequena nota, mas de grande importância, está na edição de 3 de novembro, onde, através do título “Felicitações”, comunica-se o casamento, celebrado em Cordeiros, do Sr. Joaquim Pereira e da sra. Lydia Levy Pereira. 

Segundo informações de outras fontes, o futuro capitão Joaquim Manoel Pereira nasceu em 1870 e, à época do seu casamento, contava com 29 anos. Foi proprietário da Vila Pereira e de parte da Fazenda Ibicaba. Nenhum de seus descendentes, até prova em contrário, moram mais em Cordeirópolis, tendo se dispersado pelas cidades da região. 
 
Logo no início do ano de 1901, ou seja, no início do século XX, uma nota da edição de 3 de janeiro informa que tinham sido assinado pelo Presidente do Estado de São Paulo decretos exonerando os ocupantes dos cargos de subdelegado e suplentes do distrito de Cordeiro, que eram naquele momento Antonio Pierrotti, Francisco Braz de Moraes e Antonio dos Santos Carvalho. Destes cidadãos, talvez somente a família Moraes conta ainda com descendentes na cidade, sendo os outros originários de cidades da região. 

Em 13 de outubro, consta uma nota interessante sobre um dos primeiros professores da escola de primeiras letras de Cordeiro, chamado Luiz Guilherme Savoy, conforme já citamos em outras oportunidades. Surpreendentemente, é publicado despacho, da Secretaria Estadual do Interior, onde se diz: 

“Declare e prove a razão por que abandonou o exercício da escola do bairro de Cordeiros, no município de Rio Claro”, foi o despacho que teve da Secretaria do Interior o requerimento do ex-professor público Luiz Guilherme Savoy, pedindo voltar ao exercício do cargo, com  provimento na escola do bairro da Rocinha”. 

Pelo que se vê, mesmo concursado e um dos primeiros ocupantes da cadeira de primeiras letras de Cordeiro, supostamente Savoy abandonou o cargo sem justificativa, sendo cobrado por isso mais de dez anos após o fato. 

Depois de alguns anos, surge novamente uma nova nota sobre Cordeiro. De acordo com a edição de 13 de janeiro de 1905, continuavam os problemas na área da saúde publica em todo o Estado. 

Para avaliar a situação, foi encaminhado a localidades abrangidas pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro (Limeira, Cordeiros, Araras, Leme, Pirassununga e Porto Ferreira) o inspetor sanitário Dr. Araripe Sucupira, que teria apresentado à Secretaria do Interior o relatório de sua viagem por estas cidades. Não se conseguiu recuperar as informações que foram prestadas por este médico.

Em 23 de maio de 1906, sob o título “Em Cordeiros”, destaca-se a publicação feita pelos operários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, sobre um manifesto ao público, expondo os motivos que os levaram a declarar-se em greve. 

Em 20 de maio, a edição do jornal “O Cordeirense”, de acordo com a reprodução deste jornal, indicou que a greve dos ferroviários teria começado no dia 15 pela manhã. Os ferroviários, atendendo a determinação do Conselho Administrativo da Liga Operária, foram autorizados a iniciar o movimento neste dia. 

Segundo a nota, os ferroviários teriam se reunido no dia anterior na sala do Sr. João Lucke, proprietário e comerciante do distrito, um dos imigrantes de origem germânica que adquiriram lotes no Núcleo Colonial do Cascalho antes de se transferir para próximo da estação, para tomar conhecimento das resoluções do comando grevista. 

Desde a manhã, ninguém teria se apresentado ao trabalho, sendo que alguns teriam ficado em casa, outros se reuniram na estação e outros, que não estavam filiados à liga, teriam se apresentado ao trabalho. Como conseqüência, o trem misto que se formaria na estação de Cordeiro às 5h55 da manhã, não teria seguido viagem. Da mesma forma, não foi posto fogo às máquinas a vapor, pois à meia noite não tinha mais nenhum “limpador” trabalhando. 

Segundo o comando do movimento, durante o dia todo os ferroviários estiveram na estação, ficando aglomerados, mas sem intenção de opor resistência ao pessoal que estava em serviço. No dia seguinte, foi recebido um telegrama feito por um dos responsáveis pela empresa, o Engenheiro Francisco de Monlevade, informando que quem não retornasse ao serviço no dia seguinte seria demitido. 

Conta mais o relato que naquele dia estava chegando um trem às 8h20, que apresentou problemas mecânicos, o que fez com que parasse na estação de Ibicaba. Vale lembrar que esta parada já estava em funcionamento desde 1896 naquele local, sendo desativada na década de 1950. Após resolver o problema, o trem chegou a Cordeiro às 11 horas, trazendo 30 soldados liderados por um alferes, que era a denominação antiga do chamado “2º tenente”.  
  
Citou o responsável pelo movimento que os ferroviários estavam reunidos na plataforma, a 30 metros do trem, sem nada dizer e com intenções pacíficas, quando foram abordados pelos soldados enviados pelo trem que tinha sido consertado, atacando-os e fazendo com que fugissem até a casa das máquinas, dispersando a reunião. 

Terminando o relato, foi falado que o trem, a partir disto, teria partido para Rio Claro, onde os soldados estariam reprimindo o movimento grevista daquela importante cidade ferroviária. 

Em julho de 1907 um artigo anônimo elogia o esforço realizado pelo padre Leandro Dell´Uomo na construção da Igreja Matriz de Santo Antonio, no então distrito de Cordeiro. O papel do padre nesta obra já foi objeto de um artigo disponível nesta mesma seção. Diz o articulista anônimo:

“(...) a adiantada Villa de Cordeiros, cujo progresso vai de vento em popa, se ressentia da falta de uma igreja matriz, que atestasse o zelo de seus habitantes pela crença religiosa, (...). A velha capela, tradição piedosa de outros tempos, recordação veneranda de outras gerações, era uma ruína do passado, em contínuo contraste com a casaria nova e elegante. 

Em boa hora pra lá foi, como vigário, o revmo. Padre Leandro, missionário de S. Carlos, e tão bem se houve, de tal forma se impôs, com tanto jeito se insinuou que, à sua vez, o povo de Cordeiros congregou-se e a velha capela está substituída por um templo belo e vasto, que é mais um padrão honroso para o progresso e religiosidade dos habitantes daquela adiantada vila paulista.

A nova matriz é obra toda do concurso popular, nem para ela concorreu o governo, como não concorreu qualquer outro melhoramento cordeirense, a não ser sugar impostos, para atirar à voragem da valorização, e impor chapas para que sejam eleitos os escolhidos do peito, que têm de aprovar todos os seus atos.“ 

Finaliza o brilhante articulista, que expôs a síntese do que era o distrito naquela época: “Eu, se fosse de Cordeiros, na primeira eleição votava no frade benemérito e guerreava o governo, que afinal vale menos, para os cordeirenses, do que o construtor de sua bela igreja matriz”. 

No ano seguinte, três notas são encontradas com referência ao então distrito de Cordeiro. A primeira é a repercussão do assassinato do Rei de Portugal, D. Carlos I, conforme um texto que merece ser lido, explicando o que aconteceu naquele ano de 1908 (https://jornaldagolpilheira.pt/2008/01/25/rei-d-carlos-i-assassinado-ha-um-seculo/):

“Como era habitual no início de cada ano, D. Carlos partiu com toda a família para Vila Viçosa, a morada ancestral dos Bragança e o seu palácio preferido. Aí reuniu pela última vez os seus amigos íntimos (raramente levava convidados oficiais para a vila alentejana), promovendo as suas célebres caçadas. Entretanto, a situação política agravava-se em Lisboa, com a oposição ao franquismo, estalando uma revolta, abortada em 28 de Janeiro. João Franco decidiu ir mais longe e preparou um decreto, prevendo o degredo sumário para as colónias asiáticas dos revoltosos republicanos. O rei assinou o decreto ainda em Vila Viçosa (consta que terá então dito: “acabei de assinar a minha sentença de morte”)
A 1 de Fevereiro de 1908, a família real regressou a Lisboa, depois de uma temporada no Palácio Ducal de Vila Viçosa. Viajaram de comboio até ao Barreiro, onde apanharam um vapor para o Terreiro do Paço. Esperavam-nos o Governo e vários dignitários da corte. Após os cumprimentos, a família real subiu para uma carruagem aberta, em direcção ao Palácio das Necessidades. A carruagem com a família real atravessou o Terreiro do Paço, onde foi atingida por disparos vindos da multidão, que se juntara para saudar o rei. D. Carlos I morreu imediatamente, o herdeiro D. Luís Filipe foi ferido mortalmente e o infante D. Manuel ferido num braço.”

Dentre as correspondências de solidariedade ao povo português, em função do trágico acontecimento, consta no “Comércio de São Paulo” o telegrama que dizia: “Cordeiros, 7 – A Colônia Portuguesa de Cordeiros, sentida com deploráveis acontecimentos Portugal, apresenta a v. exa., sinceros pêsames”.

Passado o impacto do regicídio, assuntos mais rasteiros voltam a preocupar os leitores do jornal. No caso de Cordeiro, um problema que deve ter existido desde 1878, quando o primeiro posto dos Correios foi inaugurado, ainda na estação ferroviária, era o mau serviço prestado pela empresa. 

Sob o título “Escândalos no Correio” o jornal trata de diversos assuntos na nota, na edição de 14 de fevereiro, como a “desmoralização postal” e as “reclamações de Iguape, Monte Alegre e Cordeiros”. 

Falando sobre a situação dos correios naquele tempo, o articulista anônimo destaca a “desorganização moral” que avassalava a repartição postal do Estado de São Paulo. 

Dizia a nota: “nos correios há uma completa desmoralização, por que altos funcionários não poderão elevar a voz sem que outros lhes acenem com as grades da prisão. (...) Por toda a parte a desorganização do serviço é assunto sabido, e diariamente se repetem as queixas contra os funcionários e contra a falta de cumprimento de deveres.”

Mais à frente se diz: “Também se queixam os nossos assinantes de Monte Alegre e Cordeiros, do atraso por vezes da entrega do nosso jornal. Regularmente expedidos, não podemos explicar estas faltas, e estamos certos de que nem o administrador interino dos correios”. 

Por fim, neste ano, a última nota é referente à existência da companhia chamada “Rede Telefônica Bragantina”,uma das maiores do interior do Estado de então e que depois foi incorporada à antiga CTB – Companhia Telefônica Brasileira. Numa nota onde se informa a inauguração, em 30 de março de 1908, da estação telefônica de Itapira, informa-se que Itapira estava, a partir daquele momento, em comunicação com diversas localidades da região, como Amparo, Bragança, Campinas, Jundiaí, Atibaia, Jaguariúna, dentre outras. 

O fato curioso é a conexão que a cidade fazia, através da “Companhia Telephonica Cruz”, com Rio Claro, Limeira, Araras, Americana, Leme, Cordeiro, Carioba, Santa Gertrudes e outras estações e localidades situadas na área da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. 

A descoberta de preciosas informações neste jornal preservado e digitalizado, disponível ao publico pela internet, é o nos motivou a fazer este texto, destacando a geração inicial da povoação de Cordeiro, composta em grande parte de portugueses, que se mantinham informados sobre sua pátria, mesmo a quilômetros de distância, separados por um mar e pela imigração, mas com o coração e a alma na sua terra que deixaram.
 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo César Tamiazo - Historiador - MTE nº 713/SP
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis - https://orcid.org/0000-0003-2632-6546
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