Facebook Twitter Instagram

Cordeirópolis-SP, 18 de dezembro de 2017


 Notícias sobre Cordeiro no jornal anticlerical “A Lanterna” (1910-1914) - Portal Cordero Virtual
06/10/2017 10:31:13
Notícias sobre Cordeiro no jornal anticlerical “A Lanterna” (1910-1914)
Dentre os jornais disponíveis no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (http://hemerotecadigital.bn.br), também encontramos a coleção do jornal “A Lanterna”, fundado por Benjamin Motta e posteriormente dirigido por Edgard Leuenroth, onde também encontramos notícias interessantes sobre Cordeiro num curto período. 

Por também ser um jornal panfletário, pode-se duvidar muitas vezes da abordagem que tomou o periódico, mas não deixando de mostrar qual era, no mínimo, a “versão dos fatos” que o redator da folha tinha intenção de passar para seus leitores, especificamente o seu viés de combate às autoridades religiosas e ao clero em particular. 

A primeira referência no período com relação a Cordeiro está no jornal de 15 de janeiro de 1910, onde um artigo, assinado por “Antonio Cesar”, contava que o signatário estava, no dia 2 daquele mês, na casa de um amigo, sendo que um deles, por motivo não indicado, vestia uma capa preta com capuz. Na brincadeira, dirigiu-se ao dono da casa, e referindo-se ao colega com a capa, apresentou o mesmo como “corvo”. 

Segundo o missivista, nesta ocasião, estava passando um grupo formado por dois padres e quatro ou cinco acompanhantes, sendo que um dos sacerdotes, que foi chamado de “pouco reverendo padre desta cidade (sic)”, chamado Secondo (sic) Dell´Uomo, tinha ouvido sua apresentação humorística. Em seguida, por julgar ter sido dirigida a ele, tomou a liberdade de entrar na residência “com arrogância toda cristã”, insultando os seus acompanhantes grosseiramente e desafiando com modos agressivos. Ao final, o autor da carta considerou tudo isto como a “audácia e impertinência do ministro de Deus”. 

Logo na semana seguinte, em 22 de janeiro, a nota “Pequenos Ecos” dá conta da reclamação de Antonio Pastorelli, de Cordeiro, que veio à redação do jornal para reclamar contra o abuso de autoridade que contra ela tivera uma autoridade daquela localidade, o Sr. Palmyro d´Andrea, 1º suplente de subdelegado.

Segundo a denúncia, o Sr. Pastorelli teria criticado, moderadamente, diante do secretário daquele funcionário, ou seja, o escrivão, uma disposição referente às horas das audiências. Por isso, foi logo intimado por um soldado, a comparecer na subdelegacia e, caso faltasse, será preciso e detido por 48 horas. Como base de sua ação, o Sr. D´Andrea disse que “autoridade é lei” e que não deveria sofrer crítica; caso reincidisse na sua fala, seria encaminhado ao Juqueri, como louco. 

Não querendo suportar resignadamente a arbitrariedade, Pastorelli veio a São Paulo queixar-se à imprensa e às autoridades superiores. Encerrando a nota, o jornal indica que não se sabe se elas atenderam à sua reclamação, mas da parte deles, cumpriram seu dever, protestando contra o fato. 

Ainda neste ano, em 17 de novembro, publica-se nota em que se acusa o recebimento de um telegrama de José Fernandes Martins, de Cordeiro, manifestando solidariedade ao presidente da República, cuja decisão que envolvia a negativa de autorização à ação de certa ordem religiosa foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. 
Segundo verificamos em nossas pesquisas, o senhor, chamado na verdade de José Hernandez Martin, era funcionário de uma das fábricas de fogos que existiram em Cordeirópolis, sendo pirotécnico, ou seja, o profissional especializado na feitura dos fogos de artifício. 

Este correspondente da “Lanterna” conseguiu, em abril daquele ano, contribuições para o jornal, que tinha por objetivo “auxiliar o jornal na grande luta contra a corja negra”. Não se sabe se os subscritores foram informados da real destinação da coleta realizada por Hernandez, mas entre os doadores, encontramos: Pedro Chinelatto; Pedro Batistella; Victorio Arabicano; Henrique Dias; Domingos Boldrini; Dionísio Rossetti; Manoel Zuzarte; José Tella; Basílio Zanelato; Braz Primo; Manoel Antonio das Neves; José Sorbilli; Francisco Braz Panza, relojoeiro; Mariano Del Giganti, proprietário da fábrica de fogos; Batista Stocco, proprietário; Francisco Boldrini; Alfredo Nassif; Antonio Pierroti; João Lucke; Elias Abrão; José Antonio das Neves e Antonio das Neves; João Frattini, comerciante; Luiz della Coletta, Luiz Fabrini e Joaquim Quinteiro, de Cascalho.

Por esta época, estava cuidando das paróquias de Cordeiro e Cascalho a ordem dos escalabrinianos, a qual pertencia o padre Luiz Stefanello, conforme apontamos em artigos do ano passado; um dos superiores desta ordem era o padre Faustino Consoni, vinculado ao Orfanato Cristóvão Colombo, em São Paulo, onde ocorreu um crime bastante rumoroso à época, onde uma criança deste orfanato foi estuprada e morta.  

Segundo a imprensa anarquista, “Faustino Consoni, membro da Congregação dos Escalabrianos, foi acusado de assassinar a menina Idalina Stamato após tê-la violentado sexualmente nas dependências do antigo orfanato Cristovão Colombo (atual Instituto Cristovão Colombo), na região da Vila Prudente, à época parte do bairro do Ipiranga.” Este jornal participou da campanha visando alertar a população para o fato, sendo que a questão foi combatida pela ordem acusando os líderes operários de terem cometido o crime. 

Na edição de 1º de julho, uma nota irônica dizia que “nosso milagroso, puro e virgem S. Faustino” estaria andando pelo interior, “na sua grande e santa obra de cavação”. Por carta de um amigo, o jornal soube que o “padroeiro dos velhacos e safardanas” estava em Cascalho, chamado de “pequeno lugarejo vizinho da vila de Cordeiro, na Paulista”. 
Durante o mês de outubro daquele ano, Cordeiro volta a aparecer com alguma freqüência nas páginas daquele jornal. No dia 17, sob o título “A Lanterna” em Cordeiros, reportagem descreve “uma interessante fita que a população desta localidade teve ocasião de apreciar”. 

Diz a nota que no dia 11 suicidou-se um homem com um tiro de carabina, e por falta de padre fixo, a família do morto mandou vir o padre que estava em Cascalho substituindo Pedro Dotti. Tendo começado o padre Luiz Stefanello a recomendar o corpo, teria chegado outro padre, Thomaz Caferi, que rezava missas todo domingo. Segundo o correspondente, este “vinha em estado pouco lisonjeiro, de um engenho onde se faz daquela boa”, tendo gritado pelo sacristão. Interrompendo a celebração, o padre de Rio Claro exigia o valor do serviço, discutindo com o primeiro responsável. Após a altercação, o padre Caferi, após se dirigir à estação, onde pegaria um trem para sua cidade de origem, foi, segundo a nota, “obrigado a cheirar folhas de batatas”, caindo sobre ele uma boa porção delas... 

No dia 20 do mesmo mês, uma pequena nota, intitulada “Disputando o osso”, destaca a situação ocorrida durante o enterro de Joaquim Vieira, no momento em que o templo estava cheio de fieis, quando o coadjutor da paróquia de Rio Claro teria tentado agredir o vigário da Paróquia de Cascalho. O motivo do fato foi explicado por “haverem sido ambos convidados para servirem naquela cerimônia religiosa”. Penso que as duas notas se referem à mesma situação, mas não há como comprovar. 

Em 4 de novembro, cita-se a realização de “conferências de propaganda” realizadas no interior do Estado. Dentre os locais visitados por Valdomiro Padilha, identificado como responsável pela União Operária de Juiz de Fora, participante do Segundo Congresso Operário Brasileiro, em 1913, constam: “Campinas, Jardinópolis, Ribeirão Preto, Jaú e Cordeiro”. Segundo a reportagem, “no dia 2, fez uma conferência em Cordeiro, diante de um grande auditório”. 
A edição de 25 de novembro, refletindo nota de quinze dias antes, descreve a ação:

“No dia 2 do corrente, esteve em Cordeiro o companheiro Waldomiro Padilha, que veio a esta vila realizar uma conferência de propaganda. A sala do Sr. João Augusto Lucchi, que gentilmente a cedeu, já as 8 horas da noite abrigava uma boa concorrência, bastante numerosa para uma localidade tão pequena como é Cordeiro.

O nosso amigo, com geral agrado, demonstrado pelos aplausos com que foi distinguido, fez uma palestra sobre os males que acarreta à humanidade o clericalismo, de cujos crimes fez inumeração. Depois da conferência, reunimo-nos com o companheiro Padilha em casa do amigo Mariano Del Giganti, onde foi-lhe oferecido um copo de cerveja. No dia seguinte, Waldomiro Padilha regressou a S. Paulo”. 

Não custa relembra que Mariano Del Giganti foi sócio em uma fábrica de fogos no distrito e construiu um grande prédio, que ficava na Rua 7 de Setembro, esquina com a Rua Santos Dumont, infelizmente demolido para dar lugar a uma galeria de lojas.  

Ainda no ano de 1912, algumas reportagens destacam o então distrito de Cordeiro. Em janeiro, o correspondente descreve a festa de Nossa Senhora da Conceição, que deveria ser realizada em 8 de dezembro, mas foi transferida para o dia 25, devido ao mau tempo sendo realizada efetivamente no dia 1º de janeiro.

Enquanto fazia sua procissão, os fieis foram atingidos pela chuva, o que atrapalhou o desfile. Devido ao mesmo problema, a queima de fogos foi transferida para o dia 6, dia de Reis. Segundo o correspondente, no leilão de prendas, finalmente realizado quase um mês depois da data prevista, foram vendidos chopes, óleo de rícino, vinhos, réstias de alho velho, baratas em caixas, os “segredos” e uma imagem de Cristo. Segundo “Golias”, os sapateiros locais também ganharam, pois tiveram ocasião de vender alguns de seus produtos, pois a ocasião era de solenidade e ir à festa de “pés descalços” era o diabo... 

Em março, aparece uma carta, assinada pelos responsáveis por uma “Sociedade Internacional Operária”,que estava ativa em Cordeiro, sob a responsabilidade de B.F. Bueno e de Alfredo Nassif. Direcionada a Edgard Leuenroth, a sociedade cumprimenta “a ação heróica” em prol da verdade provada hoje à luz da fecunda publicidade com o sinistro caso da desventurada Idalina, vítima da “asa negra dos conventos que tenha reduzir este imaculado país, abençoada terra de Cabral, ao nada, roubando-nos a honra e acorrentando-nos à miséria”. O mês de junho traz uma pequena nota em que se fala da visita, em São Paulo, “do velho companheiro de lutas, residente em Cordeiros, José Hernandez Martin”. 

Em 6 de julho, uma nota intitulada A Lanterna no Interior destaca as ações do “asa negra que, nesta cidade, veio armar sua barraca de saltimbanco na bodega a que dão o nome de igreja”. Segundo o correspondente, “esse corvo fedorento, espantado de Portugal, de onde veio há pouco corrido”. 

Informa o correspondente que na primeira quinzena do mês de maio faleceu o sr. Pedro Batistella, bastante conhecido pelas suas idéias liberais, “um companheiro de lutas que se esforçava para ser fiel ao seu ideal anticlerical”. Segundo a nota, sentindo o seu fim, pediu à sua família que lhe respeitassem suas idéias no seu derradeiro momento, não o importunando com a presença do padre, com santos ou rezas e que seu corpo fosse diretamente para o cemitério.
Segundo a nota, “desobedecendo à ultima vontade do falecido, foi o seu cadáver mandado para a igreja (...). O vigário quis, entretanto, fazer fita, opondo-se à entrada do corpo na casa do Senhor. (...). Pedro Batistella tinha sido, em vida, um enérgico inimigo dos padres, por isso não consentia que o seu corpo entrasse na igreja. Sentindo, porém, o cheiro dos dez mil réis, que davam para umas boas centenas no bicho, deu o dito pelo não dito e passou a carta de recomendação ao S. Pedro chaveiro.” Uma história interessantíssima que merecia ser confirmada... ou desmentida!
Em janeiro de 1913, uma carta curiosa é reproduzida na edição d´A Lanterna: 
“Prezados amigos da Lanterna: Nesta vai incluso o coupon de compromisso de subscrição com que o amigo me distinguiu; não me é possível tomar maior compromisso, o que me desculpará. Sinto profundamente não poder tomar cinco ou seis desses compromissos para uma causa tão salutar como a que acaba de empreender. Depende dos amigos do progresso. Morram os servis! Cordeiros, 9-1-193, José Antonio Demarchi”. 

O jornal de 4 de outubro, sob o título “A Lanterna em Cordeiro”, mostra um perfil do padre Stefanello, que há algum tempo estava chefiando ao Paróquia de Nossa Senhora da Assunção de Cascalho, carregando nas costumeiras tintas anticlericais: 

“(...) O padre de cascalho é padre, sim, mas também é alguma coisa mais. Pensam que ele, em Cascalho, só exerce as funções de padre? Pois estão enganados (...) todos os hereges. Ele é padre, médico, boticário e até parteiro. Nos partos mais difíceis, ele sempre é chamado e para as doenças febris está prontinho. Quando a mulher é nova, ele aplica o termômetro e logo lhe receita vinho, mas quando é velha, deixa o termômetro, apalpa-lhe a barriga e a receita é óleo de rícino e dez Aves-Marias”. 

No jogo, o padre Luiz não parece padre, parece o Diabo. Joga a bola de maneira que ninguém lhe pode ganhar; no três sete é quatro de paus. No beber, é pior que um camelo: o depósito nunca lhe fica cheio. Nos casamentos, ele é o primeiro a sentar-se à mesa e o último a levantar-se; enquanto existir um osso no prato, ele não se mexe. Depois, já se sabe, acompanha a noiva ao leito nupcial, não contendo nunca um último suspiro... Enfim, o padre Luiz, que é cabra escovado, prega a guerra santa ao seu rebanho, contra os ateus de Cordeiro. 

(...) Esperando aqui a excomunhão do bom padre Luiz, já que o seu colega Julio Bosco está impossibilitado de o fazer, devido ao seu reumatismo nas santas costelas, conseqüente da força que fez quando lutou com o padre Luiz por ocasião daquele célebre ajuste de contas aqui noticiado. 

A propósito, comunico-lhes que o padre, enfurecido, disse que mataria sem piedade o autor da fita aqui desenrolada e a tiros de revólver. Deixe de ser valente, ó seu Julio, olha que há muitos revólveres (...)”  

Em edição anterior, o artigo assinado por “Operador do Clero”, dá conta da presença do padre Stefanello em Cordeiro, onde recebeu o padre Julio Bosco. Segundo o articulista, começou a se fazer um ajuste de contas, sendo que seu colega queria prejudicar Stefanello. Na discussão, Bosco começado a brigar, a socos e pontapés, com seu companheiro, sendo separados posteriormente pela cozinheira. O que aconteceu depois, não se sabe. Nem se a situação de fato ocorreu desta forma. 

  Ainda em 1914 Cordeiro ou Cascalho terá algum destaque nas edições d´A Lanterna. A primeira reportagem fala da briga que teria havido entre o padre Julio Bosco e o fiscal da Câmara Municipal de Limeira, quando o sacerdote teria reagido com uma espingarda, ao ver uma arma com o servidor público. 

Outra reportagem sustenta que o padre Pedro Savelli, de Ribeirão Preto, ao se dirigir a Cascalho para descansar na casa do padre Stefanello, foi procurado por uma moça, que se dizia sua sobrinha, mas que, segundo o artigo, era uma senhora casada, que teria largado seu marido e seus seis filhos, para se ajuntar ao padre, que a levou para um hotel. Surpreendido pelo proprietário, tratou de recomendar à amante que fugisse. Em seguida, o marido chegou e informou quem era, e o que tinha ocorrido com sua família. Terminando o artigo, foi informado que o padre dirigiu-se à Fazenda Santa Gertrudes, “passando o calote” nos hotéis onde se hospedara. 

Após este período, nada mais foi encontrado com relação ao distrito de Cordeiro, mas estas reportagens são importantíssimas para dar um panorama totalmente diferenciado do cotidiano do distrito naquele período, ao contrário do que se poderia supor em todos estes anos de pesquisa.
 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo Tamiazo
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis

Outras Colunas:
Os conteúdos publicados por colunistas ou visitantes no Portal Cordero Virtual não expressam a opinião do Portal Cordero Virtual, sendo de responsabilidade de seus autores. Clique aqui e veja os Termos e Condições de Uso do Portal Cordero Virtual.
Clique Aqui
COBERTURAS

MAIS COBERTURAS

2001-2017 - Portal Cordero Virtual
CNPJ: 24.503.804/0001-71