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 Notícias sobre Cordeiro no jornal anarquista “O Combate” (1918-1920) - Portal Cordero Virtual

Notícias sobre Cordeiro no jornal anarquista “O Combate” (1918-1920)

28/09/2017 11:41:09
Dentre os jornais disponíveis no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (http://hemerotecadigital.bn.br), encontramos a coleção do jornal “O Combate”, de propriedade do agitador anarquista Edgard Leuenroth, e através da pesquisa do site, encontramos notícias interessantes sobre Cordeiro num curto período. 

Por ser um jornal panfletário, pode-se duvidar muitas vezes da abordagem que tomou o periódico, mas não deixando de mostrar qual era, no mínimo, a “versão dos fatos” que o redator da folha tinha intenção de passar para seus leitores. 

Uma das referências iniciais a Cordeiro está na edição de 10 de julho de 1918, com o título “O comércio de empregos públicos – A coletoria federal de Itapetininga negociada por 16 contos – Negócio idêntico com  a de Cordeiro”. Uma carta anônima, reproduzida neste jornal, dava conta de que “tem esta o fim especial de dizer lhe que mais interessante se me afigura o deste município de Cordeiro (sic) onde foi criada, há pouco tempo, uma coletoria das rendas federais e nomeado para exator da mesma um protegido da politicagem, um tal Sr. Germano de Oliveira, que, para isso nada dispendeu. Agora, o felizardo acaba de negociar o cargo público, vendendo-o ao Sr. Francisco Hyppolito, pela importância de Rs. 10:000$000 (dez contos de reis).”

Em nossas pesquisas, identificamos realmente a presença de um senhor chamado Germano de Oliveira, que em algum momento freqüentou os documentos que tivemos acesso, mas poucas informações sabemos dele. Quanto o “Francisco Hyppolito”, não encontramos nenhuma referência específica que possa identificar quem seja. 

Em 19 de julho de 1918, “um negociante em Cordeiro” escreveu ao jornal anarquista, reclamando da “falta de selos” nas Coletorias, um sistema abolido na década de 1960, em que cada documento, para ter validade, teria que estar selado, pagando-se taxa ao Estado e ao governo federal. O negociante informa que a coletoria federal de Cordeiro foi instalada em 27 de junho, tomando posse naquele momento o coletor e o escrivão. 

Para iniciar seus trabalhos, comunicaram ao seu superior para que enviassem os selos que seriam utilizados para atender aos cidadãos que os procurassem. Passada uma semana, segundo o relato, nenhum selo foi enviado. Passado mais cinco dias, o responsável telegrafou ao delegado fiscal, pedindo providências. Nem os selos e nem resposta do telegrama recebeu o responsável. 

Reclamando novamente da situação, o coletor utilizou-se do meio mais rápido à época, ou seja, o telegrama, reclamando os motivos de não ter recebido os selos. Por fim, teve como resposta de que a repartição só mandaria os selos, desde que fosse recolhido o saldo do mês anterior. Destaca a reportagem: “se uma coletoria que se abria havia de ter saldo para recolher! Nem selos ela ainda tinha recebido e o delegado já reclamava (...)”. Um mês após o início de suas atividades, a coletoria continuava funcionando sem ter recebido o material necessário para seus serviços... 
Nenhuma reclamação partindo de Cordeiro foi feita durante o ano de 1919, ou por algum motivo não foi encontrada em nossas pesquisas. No ano de 1920, os problemas continuaram, e o jornal foi o veículo para que as reclamações fossem levadas a quem de direito. 

O jornal de 20 de março de 1920 destaca, dentro da visita do então Presidente do Estado, Altino Arantes, a Horto Florestal de Rio Claro. Segundo a reportagem, tão logo chegou a Rio Claro, o Presidente do Estado (nome antigo do atual cargo de Governador) foi de carro, provavelmente da estação ferroviária até o horto. Entretanto, o carro teve um problema mecânico entre Santa Gertrudes e Rio Claro, impedindo ao tráfego dos trens. 

Para explicar a situação e chamar socorro, o encarregado do automóvel foi mandado a correr quatro quilômetros de distância, chegando a Rio Claro em doze minutos. Ao chegar ao local, o motorista estava “pálido, quase sem forças”, tendo que receber socorros médicos. 

Neste meio tempo, o trem de socorro seguiu, e o governador chegou a Cordeiro, onde estava prevista a sua presença, tendo visitado também o Horto de Loreto, em Araras. Por causa disso, segundo a reportagem, “todos os trens da Paulista ficaram atrasados, tanto que o “noturno” chegou a Rio Claro uma hora após a regulamentar”. 

Não encontramos, até o momento, reportagem que indique necessariamente o fato, mas caso isto seja comprovado, o assunto será novamente abordado no futuro. 

Outro fato bastante interessante, e que esclarece diversos pontos das pesquisas que vemos fazendo há mais de vinte anos, é a reportagem “Em Cordeiro – Uma Fiação de Seda deverá estar funcionando dentro de 18 meses – As concessões da Câmara de Limeira”, do jornl “O Combate” de 23 de março de 1920. 

De acordo com o jornal, em Limeira estava se cogitando a instalação de uma grande fábrica de tecidos. Reproduzindo reportagem do jornal “O Limeirense”, cujos exemplares não sabemos em que situação se encontram, o que dificultou, nos últimos 20 anos, nossas pesquisas sobre o assunto, Cordeiro passaria a ter, em breve, “não uma fábrica de tecidos comum, mas sim uma fiação de seda, produto que em outros pontos do país já se executa, se bem que muito raramente dele se fale.”

Continua a reportagem dizendo que o industrial suíço Emil Schlapfer, de passeio por Limeira, teria se certificado “das vantagens oferecidas pela estação de Cordeiro para o estabelecimento de uma fiação de seda, chegando logo a entabular negociações com a edilidade limeirense, negociações essas que a bom termo chegaram com a assinatura do contrato, lavrado a 19 do corrente”.

Por este documento, comprometeu-se o concessionário a fazer funcionar as oficinas dentro de dezoito meses, com o mínimo de cem operários, maiores de 14 anos. O empresário teria feito um depósito de cinco contos de réis, que seriam empregados em tijolos, que reverteriam em patrimônio da Municipalidade, caso a empresa não estivesse funcionando neste período. 

Como subsídio ao empresário, o município de Limeira estaria oferecendo um auxílio, ou como se diz hoje, um subsídio, de cem contos de réis, em vinte prestações anuais, e concedendo isenção de impostos pelos mesmos vinte anos, desde que a empresa estivesse em atividade.

Segundo o acordo, o subsídio retornaria aos cofres municipais caso, durante os vinte anos da concessão, a empresa desse lucros líquidos de 12% sobre o capital empregado. O Sr. Emil Schlapfer já teria adquirido o terreno necessário para a edificação das oficinas, contratando o fornecimento de mudas de amoreiras. 

Pelo que conseguimos recuperar há mais de vinte anos, de fato foi contratado o fornecimento de 500 mil mudas de amoreiras, com um profissional residente em Santa Gertrudes. Quanto ao terreno, após idas e vindas, especialmente por problemas de herança e judiciais, este foi efetivamente adquirido pelo Sr. Schlapfer, em nome da S.A. Indústria de Seda Nacional. 

Conforme já apontamos em outros textos, a indústria foi posteriormente adquirida pela empresa Matarazzo, um dos maiores conglomerados empresariais do Brasil no início do século XX, sendo desapropriada pelo Governo do Estado na década de 1940. Ao contrário da expectativa, o local que seria utilizado para a indústria se transformou simplesmente num local de plantio de mudas e foram instalados alguns equipamentos para processamento destes materiais. 

Sobre as dificuldades enfrentadas para a implantação da fábrica de seda e a efetiva instalação em Campinas, veja nosso artigo “A indústria de seda nacional em Cordeiro: da esperança à decepção (1920-1930)” em https://cordeiropolis.corderovirtual.com.br/colunas/588/revivendo-historia/a-industria-de-seda-nacional-em-cordeiro--da-esperanca-a-decepcao--1920-1930-, nesta nossa seção “Revivendo a História”. 

Neste mesmo ano, o “Combate” de 11 de maio destaca “Em Cordeiro – Um operário da Paulista preso e espancado – Abertura de inquérito”. Nos jornais pesquisados nos últimos 20 anos, até o momento, não tinha sido exposto este fato cotidiano do então distrito, o que faz com que esta reportagem seja de destaque de forma incontestável. 

Segundo o periódico, “em Cordeiro, por ocasião do espetáculo da companhia equestre que ali está trabalhando, foi preso, sem motivo, pelo comandante do destacamento, um operário da Companhia Paulista, que ainda foi espancado pelos policiais ao mandado do gigante anspeçada. Anspeçada era um posto militar que ficava em uma posição superior aos soldados e inferior aos cabos, inexistente no momento. 

Continua a reportagem: “Em princípio, a autoridade policial não abriu o necessário inquérito; pessoas gradas de Cordeiro,porém, tomaram a defesa da vítima da façanha dos policiais e promoveram os meios para que o inquérito fosse iniciado, como de fato foi, sendo a vítima submetida a exame de corpo de delito. 

Em sindicância, chegou àquela vila um oficial do batalhão a que pertence o comandante e a autoridade policial pediu o seu recolhimento desta.”  Como se vê, se não houvesse a “intervenção de certas pessoas”, a violência policial injustificada, sofrida pelo ferroviário da Companhia Paulista, seria esquecida e a situação continuaria a mesma. 
Outra pequena nota, no jornal de 27 de abril, destaca a reunião realizada pelo diretor das Escolas Reunidas de Cordeiro, Domingos Vizioli, para a criação do “Patronato Escolar”, destinado a auxiliar os alunos pobres, um antecessor da Caixa Escolar e da Associação de Pais e Mestres. 

Com relação ao prédio próprio, que só ficaria pronto alguns anos mais tarde, a nota indica que “a construção deveria ser iniciada por estes dias, tendo o Sr. Dr. Alberto Ferreira da Silva, Prefeito de Limeira, doado já o material necessário para a feitura dos andaimes”. Conforme apontamos em outra oportunidade, a construção do prédio das Escolas Reunidas, depois Grupo Escolar de Cordeiro, atualmente Escola Municipal “Coronel José Levy”, foi realizada legalmente a partir de edital aberto pela Prefeitura de Limeira, e não pelo Governo do Estado, como se imaginava anteriormente. 

Outra das poucas notícias de relevância sobre Cordeiro, destacada no jornal operário “Combate” foi a edição de 20 de outubro, onde se destaca – “A varíola no interior – Multiplicam-se casos do terrível mal”. Dentre as cidades afetadas pela epidemia, destaca-se Limeira e, por conseqüência, Cordeiro. De acordo com a reportagem, “em Limeira, entraram 5, tiveram alta, curados, 5, continuavam em tratamento, 9. Dos casos novos, 3 tinham sido verificados na cidade e 2 em Cordeiro. 

Segundo a Wikipedia, Edgard Frederico Leuenroth (Mogi Mirim, 31 de outubro de 1881 — São Paulo, 28 de setembro de 1968) foi um tipógrafo, jornalista, arquivista e propagandista, um dos mais notáveis anarquistas do período da Primeira República brasileira.

Fundou diversos jornais e colaborou em diferentes funções junto a tantos outros. Esteve envolvido com os periódicos O Boi, O Alfa, Folha do Braz, O Trabalhador Gráfico, Portugal Moderno, A Terra Livre, A Lucta Proletária, A Folha do Povo, A Lanterna, A Guerra Social, O Combate, A Capital, Eclectica, Spartacus, A Plebe, Romance Jornal, Jornal dos Jornaes, A Noite, Ação Libertária e Ação Direta. 

Foi também fundador de diversas entidades vinculadas a imprensa, entre estas o Centro Typographico de São Paulo, a União dos Trabalhadores Gráficos, a Associação Paulista de Imprensa e a Federação Nacional da Imprensa.
 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo César Tamiazo - Historiador - MTE nº 713/SP
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis - https://orcid.org/0000-0003-2632-6546
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