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Carta de Pero Vaz - a resposta

05/08/2017 11:58:26
Meu caro Pero, 
 
Tua carta, relatando a descoberta de novas e tão ricas terras para a Coroa lusitana, causou grande satisfação ao nosso Rei, Dom Manuel. Fui testemunha bem próxima - muito mais próxima do que podes imaginar - dos pulos de alegria que dava a cada parágrafo lido. Era tanto contentamento que se mijava nas ceroulas, ora pois. 
 
Deves estar estranhando o fato de eu, tua esposa, estar a responder-te, e não o Rei. Mas explico-te em poucas linhas, que espero suficientes para que jamais voltes a pisar o solo português e nem olhes na minha cara novamente. 
 
Saibas que escrevo-te estas mal-traçadas no leito imperial, onde o monarca agora está a ressonar profundamente após uma alucinante noite de amor comigo. Peço-te o favor de não sentires ciúmes de mim. Como vês, não valho nada, nunca vali, e não sou digna nem mesmo do teu desprezo. Do mesmo modo, estejas certo de que nunca reclamarei direito algum se vieres a deitar, nas redes aborígenes que encontrares, com as índias nuas que te apetecerem. Mas aconselho-te a sempre teres contigo um farto e variado estoque de espelhinhos, apitos e outras quinquilharias a que os selvagens daí parecem gostar tanto. Primeiro, para tornares mais fáceis as tuas conquistas - já que não és nenhum modelo de formosura. Segundo, para acalmares os ânimos dos índios não acostumados a emprestarem suas mulheres para portugueses de segunda categoria como tu.
 
Afirmas em teu relato que, aí onde te encontras, em se plantando tudo dá. Assim, sugiro que por aí permaneças para iniciar uma nova etapa da tua vida e quem sabe fazer a fortuna que não conseguiste nestas paragens. Sim, Pero Vaz, estou a dar-te uma banana. E desejo que a transformes em abacaxis, palmeiras, cocos, carambolas, macaúbas e tudo mais que puderes cultivar na Terra de Santa Cruz (ou seria Ilha de Vera Cruz?). E que te tornes tão rico e poderoso quanto Dom Manuel I, meu amante desde os tempos em que ainda eras um reles aspirante à esquadra de Cabral. 
 
Esta é uma obra de ficção.
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Consoantes Reticentes
Por: Marcelo Pirajá Sguassábia
Humor, nonsense e sátira. Junte a isso algumas incursões no universo onírico. É esse mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido. Sou redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco fanático e amante de filmes e livros sobre viagens no tempo.
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