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 A citricultura na imprensa paulista até a criação da Estação Experimental em Cordeirópolis (1909-1931) - Portal Cordero Virtual

A citricultura na imprensa paulista até a criação da Estação Experimental em Cordeirópolis (1909-1931)

02/07/2017 15:16:55
Neste artigo pretendemos recuperar as citações, em alguns jornais paulistas de grande circulação sobre a citricultura na primeira metade do século XX. Este texto propõe que, até o cultivo e comercialização do café não sofrer problemas, não havia interesse dos governantes em implantar uma cultura alternativa, que acabou sendo a citricultura. 

Nos jornais e no período pesquisado, a primeira referência é uma reportagem do “Correio Paulistano” de 10 de outubro de 1909, em que se comenta que um “representante da Repartição de Agricultura de Washington mandou da Bahia, em 1870, algumas mudas de laranjeira de umbigo, que foram plantadas na estufa do Capitólio. (...) A Itália exporta anualmente laranjas (...) e [há] exportação hespanhola de Valência (...); laranjas importadas na Inglaterra e na Irlanda, (...) [além] da Califórnia (...). É preciso notar que a citricultura na Califórnia é quase uma cultura artificial. Só a comportam as terras onde é possível a irrigação – mais ainda – a sub-irrigação, sendo que, além disso, as terras, após alguns anos, precisam ser fertilizadas (...). Entretanto, como se viu, é quase nula a exportação de laranja de nosso país.”

Durante a década de 1910 e quase metade da de 1920, não há sequer uma referência à citricultura nos jornais pesquisados, sendo que em 1928 surge uma reportagem intitulada “Nos laranjais de Limeira”, informando que um emissário do Estado da Bahia estava em visita a Limeira, onde o Correio Paulistano indicava que no município de Limeira estava começando a cultura de laranjas, circunscrita a certas regiões de São Paulo. 

O Dr. Esteves de Assis, médico e técnico em citricultura na Bahia, em visita aos laranjais de Limeira, informava à reportagem sobre um dos pioneiros do cultivo naquela cidade, o major José Levy Sobrinho, em conjunto com o Senador Barros Penteado. Na sua viagem, declarou que a média de produção por pé, naquele momento, era superior a da Bahia, mas tinha perdido uma parte de suas boas qualidades, adquirido melhor colorido; entretanto, o tamanho estava sendo reduzido para que ficasse ao agrado dos mercados recebedores. O sabor, entretanto, seria francamente inferior ao da laranja da Bahia, concluindo que o solo baiano guardara o segredo dos aromas, concluindo que certas condições geológicas, climáticas e atmosféricas deveriam influir para esta modificação. 

O diferencial das ações realizadas na região de Limeira naquele momento, segundo Assis, era que existia muitas pessoas que não compreendiam a iniciativa particular sem a ajuda pecuniária e constante dos governos, mas em Limeira, o que era desejado residia nas “garantias materiais e morais indispensáveis ao êxito da vitória agrícola”, diante do qual o dinheiro poderia degenerar em fator negativo. Sugeria o técnico que o transporte seja feito e fiscalizado na quantidade, qualidade e tempo, e que a fruta destinada ao comércio exterior encontre no porto de embarque, o aparelhamento necessário. 
      
Disse o emissário do governo baiano que o comércio da laranja em São Paulo estava no início, mas as laranjeiras existiam aos milhões, “rompendo as muralhas da inveterada monocultura”, pois “terras até ontem ocupadas por cafeeiros cobrem-se de laranjais majestosos e promissores de uma riqueza nova”. Por fim, o médico cita que “S. Paulo já é um maravilhoso cenário, onde se encontra o que admirar, e uma excelente escola, onde já há muito para aprender, com justificado orgulho para os mestres, e sem nenhum desdouro para seus discípulos”. 

Em agosto de 1928, aparece no “Estado de São Paulo” um artigo intitulado “Citricultura”, assinado por Eduardo Navarro de Andrade, onde descreve as melhores variedades para o cultivo, terminando por dizer que “não é negócio deixar o certo pelo duvidoso”. 

No mês de setembro, a Coluna Agrícola de L. Granato no Correio Paulistano propõe inicialmente que “a cultura da laranjeira e de outras plantas do gênero citrus poderá proporcionar vultosos lucros. As experiências iniciadas, especialmente, no município de Limeira, com referência à intensificação cultural da laranjeira e à sua exportação, abriram largos horizontes ao agricultor paulista que, em boa hora, despertou para tirar partido da exploração de uma planta que outros já haviam sabido levar para a sua terra, que dela tirou inestimável proveito”. Destaca o articulista o trabalho de Navarro de Andrade, “a divulgar, em artigos magistrais, tudo quanto o nosso citricultor deve receber como evangelho e guiá-lo para o melhor proveito na solução do problema agrícola e econômico que o atraiu.”

Em outubro, através do “Diário Nacional”, divulgou-se uma excursão de estudos à Califórnia, com a possibilidade de estudar a citricultura na Estação Experimental de Riverside da Universidade da Califórnia, e da California Fruit Browers´ Exchange de forma intensiva, conhecendo detalhes da cultura da laranjeira, o trabalho da packing house, armazéns, frigoríficos, vagões especiais para o transporte de laranja e outros locais. 

Os excursionistas iriam passar por Nova York, Chicago, São Francisco, Los Angeles e Nova Orleans, em setenta e quatro dias de estadia, partindo de Santos a 23 de dezembro de 1928 e retornando em 3 de março de 1929. Conforme reportagem de 14 de novembro, do jornal “O Estado de São Paulo”, devido ao naufrágio do Vestris, esta excursão seria feita pelo vapor Pan America,  em 2 de janeiro de 1929. 

Entretanto, no mesmo período, a Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada dos Fruticultores Paulistas informava, em artigo propagandístico, que os fruticultores de Limeira, que exportaram “Citrus” tiveram lucros plenamente satisfatórios nos meses anteriores.  

Em 21 de novembro, o Diário Nacional estampa anúncio da “Dasingers Tours”, para Califórnia, Flórida, Cuba e México, com partida marcada para 18 de dezembro, a primeira excursão de inverno à América do Norte, onde iriam ser visitadas as regiões de citricultura e outras frutas. As principais cidades visitadas seriam Los Angeles, Havana, Palm Beach, Nova Orleans, Washington, Nova York e o Grand Canyon do Arizona. Também seriam visitados os estúdios de Holywood, o cassino de Tia Juana (possivelmente Tijuana), no México, empresas de café, açúcar, gado, minas e refinações de petróleo.

O organizador da excursão teria feito com a associação de citricultores da Flórida e câmaras de comércio da região “todos os arranjos para que os excursionistas” tivessem facilidades de ver e estudar minuciosamente tudo que lhes interessasse na área. Não encontramos algo que possa dar conta do que realmente aconteceu com relação às excursões propostas neste período. 

No mês de dezembro, o Correio Paulistano cita as medidas da administração para desenvolver em São Paulo a citricultura, dizendo que a este ramo faltava orientação científica e comercial. Sob a orientação do então Secretário de Agricultura Fernando Costa, tinha sido contratado Felisberto de Camargo, especialista no assunto, que trabalhou por muito tempo na Estação de Deodoro, no Rio de Janeiro, ficando vinculado ao Instituto Agronômico de Campinas. 

A proposta, naquele momento, seria a instalação de “cinco estações experimentais, em Campinas, Limeira, Sorocaba, uma no litoral e outra na zona norte do Estado” e seria feita uma campanha em favor da fruta, sobre o plantio da árvore até a colocação do produto, em Santos, além de construídos pavilhões especiais em Limeira e Sorocaba para embalagem e encaminhamento do produto, da forma como é feita na Inglaterra e nos Estados Unidos. 

Ressaltava-se que o agrônomo Felisberto de Camargo se especializara na Califórnia e iria criar e dirigir, junto ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC), “um grande campo experimental de citricultura”, ao mesmo tempo em que seriam criadas estações experimentais nos locais citados, onde seriam estudadas cuidadosamente questões como sementeiras, seleção de sementes, enxertias, estudos dos melhores “cavalos”, etc. 

Nestas estações o agricultor receberia todos os ensinamentos relativos à citricultura, ficando encarregadas de distribuir, por preços razoáveis, de mudas selecionadas, e de estudar a vida destes vegetais, com o objetivo de melhorá-los, formando um tipo comercial de laranja que tenha melhor aceitação nos diversos mercados, além de estabelecer, desde aquele momento, packing houses em Limeira e Sorocaba, que teriam por fim aperfeiçoar o produto. 

De acordo com o artigo, o agrônomo Felisberto de Camargo ficaria encarregado de fiscalizar as embalagens de frutas destinadas à exportação. Por fim, dizia-se que a citricultura paulista não seria para “inglês ver”, mas para principalmente o “inglês comprar”...   

 Do ponto de vista do governo do Estado, o relatório de 1929 informa as ações tomadas nesta área. Segundo a publicação “os cafezais já imprestáveis vão sendo substituídos pelos laranjais, que oferecem uma esplêndida fonte de renda e interessam diretamente aos lavradores pelas possibilidades que encerram. (...) Estamos certos de que a cultura da laranja em S. Paulo constituirá uma das bases de nossa riqueza e nosso desenvolvimento.” 

“Com relação ao acondicionamento e classificação de laranjas destinadas à exportação”, o governo estava aplicando a Lei Estadual nº 2356, de 31 de dezembro de 1928, que autorizava a fiscalização dos pomares a fim de evitar a propagação das pragas e conseguir maior aproveitamento na cultura, bem como o beneficiamento e classificação dos produtos. Foram construídas “packing houses” em Limeira e Sorocaba, com maquinários cedidos pelo Governo Federal, e tomadas providências junto à ferrovia e ao Porto de Santos, especialmente quanto à fiscalização do Ministério da Agricultura. 

Em outro trecho do relatório, informava-se que foi instituído neste período o serviço de citricultura, com o objetivo de organizar os produtores em cooperativas regionais, para concorrer com seus competidores, especialmente a Florida e a Califórnia. Em Limeira, seria organizada uma “escola de embalagem e comércio de frutas”, sendo construída à margem da Companhia Paulista, um prédio destinado a este fim. O maquinário destinado a lavar, enxugar, polir e classificar as frutas foram encomendados pelo Ministério da Agricultura nos EUA, e a construção da packing house contava com a colaboração dos governos federal, estadual e municipal. 

Naquele momento, estavam em adiantado estado de instalação as sub-estações de Limeira, Sorocaba e a do litoral, que deveriam produzir no mínimo 300 mil mudas enxertadas de 200 mil “cavalos” anualmente, que seriam vendidas por um valor que não “tirasse aos particulares o estímulo” de produzi-las.  Também seriam fornecidos 5 milhões de “cavalos”, para a formação de viveiros particulares. 

Em janeiro de 1929, expõe-se o que se realizava na ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), em Piracicaba, destacando-se que todos os alunos fizeram, no ano anterior, aulas práticas de citricultura, compreendendo seleção e preparo de sementes, plantio, enxertia e transplante das mudas enxertadas. Também foram realizadas excursões de estudos para visitar localidades no interior onde eram feitas a embalagem e transporte de frutas. 

De acordo com reportagem do Correio Paulistano em 22 de janeiro, o Ministério da Agricultura informava que o Rio de Janeiro estava exportando laranjas cultivadas em diversos locais do Estado,m mas com o objetivo de incrementar a exportação, o governo teria adquirido nos Estados Unidos duas “bocking houses” (sic), destinadas às instalações de Nova Iguaçu e Limeira, que teriam por objetivo classificar, conservar e dar colorido imediato sem emprego de qualquer outra substância, ficando à disposição dos produtores e exportadores de laranja. Por fim, a reportagem indicava que “em Limeira a citricultura” estava “francamente dominando”. No início de fevereiro, é autorizado o pagamento ao “pessoal operário do Serviço de Citricultura – Campo de Limeira”. 

Uma reportagem do jornal “O Estado de São Paulo” de março, com foto, destaca a estatística sobre a exportação de laranjas para a Europa, dizendo que no ano anterior teriam sido exportadas para a Europa 130 mil caixas, expedidas também 370 mil para o mercado interno, existindo naquele momento no Estado um total de 2 milhões de pés de laranjas plantados, sendo 1 milhão e oitocentos mil em produção, sendo Limeira o município com mais laranjeiras plantadas, estimadas em 800 mil.   

Em abril, anuncia-se a realização, em maio, de uma exposição de flores e hortaliças, que teria sede no Museu Agrícola e Industrial, instalado no Palácio das Indústrias, em São Paulo. Um dos pontos de destaque da exposição seriam os frutos dos quatro anos da fruticultura paulista, onde o produtor teria oportunidade de fazer-se conhecido no mercado interno. A comissão responsável por organizar a exposição teria, dentre seus membros, o major José Levy Sobrinho e João Dierberger, proprietários rurais de Limeira. 

Em maio, a imprensa paulista destaca com grande presença as atividades citrícolas de Limeira. No jornal “O Estado de São Paulo”, fala-se da visita à Fazenda Retiro, do senador Barros Penteado, onde era realizada, por dois agrônomos do Serviço de Citricultura, experiências e trabalhos para selecionar as melhores laranjeiras, tirando as borbulhas para os enxertos e estudar o melhor adubo para cada tipo de terra e cada qualidade de laranjeira. 

Ainda assim, a produção dos laranjais de Limeira, naquele tempo, era a metade do que se produzia na Flórida e na Califórnia, onde era feita adubação apropriada e apenas 5% das árvores produziam o fruto adequado para a exportação, denominado “laranja baiana tipo instituto”. Também era produzida a chamada “grapefruit” para exportação à Inglaterra. 

Citou-se a realização de uma “Semana da Citricultura”, onde o pesquisador dr. Felisberto de Camargo teria feito a propaganda de um “cavalo” de laranja azeda e a realização de trabalhos na Fazenda Santa Elisa, onde são feitas a preparação de elementos para a formação de pomares e a seleção de variedades para exportação. 

Foi lembrado que para o packing house de Limeira contribuíram o município, com a doação do terreno, o governo do Estado com a construção do prédio e o governo federal com o maquinário, que estava chegando ao porto, permitindo que a laranja fosse lavada, enxugada, lustrada e classificada em tamanhos diferentes. Ainda assim, o preço conseguido  pelos citricultores na laranja para exportação, naquele momento, era quase 50% inferior ao que era pago aos produtores de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. 

Ao mesmo tempo, divulgou-se a reunião da Sociedade Rural Brasileira, em que esteve presente Mario de Souza Queiroz, informando os problemas da citricultura paulista, que eram a falta de meios de transporte rápidos e eficientes, a preferência por laranjas pequenas, a situação das terras fracas, que produzem laranja de ótima qualidade, mas terras adubadas produzem em maior quantidade e rendimento. 
Também foi descrita a inauguração do “Museu Agrícola e Industrial” de São Paulo, com a inauguração da exposição de frutas no Palácio das Indústrias, tendo falado o major José Levy Sobrinho, chamado de “agricultor em Limeira, especializado em citricultura”. 

Na semana em que a reportagem foi feita pelo Correio Paulistano, entre 19 e 22 de maio de 1929, foi realizada a “Semana da Citricultura”, dirigida pelo dr. Felisberto de Camargo, técnico que dirigia no Instituto Agronômico, tudo que se referia à citricultura. Em junho, seria inaugurada a packing house, construída com a colaboração dos governos municipal, estadual e federal, além da criação da cooperativa dos citricultores.

A reportagem do segundo dia, além de tecer elogios a todos os aspectos da cidade, destaca que a primeira plantação de laranjeiras da cidade teria surgido sessenta anos antes, em 1869, por iniciativa do coronel Flamínio Ferreira de Camargo, em sua chácara dentro da cidade, que aquele tempo estava com seu filho, Mario. Foi citado que por volta de 1880 Joaquim da Rocha Camargo, também em Limeira, teria formado um laranjal e vendido na estação ferroviária, sendo sucedido por Domingos Alves Guimarães, Antonio Vaz e Joaquim Pedro Rodovalho. 

Recordou que em 1926 foi realizada a primeira exportação de laranjas, pela firma Levy & Dierberger, sendo que na cidade as fazendas se tornaram mistas, com café, laranja, abacaxi e amoreiras, devidas, segundo o jornal, à “proximidade da fábrica de seda de Campinas”. As laranjas, naquele momento, substituiriam os pés de café imprestáveis. 

Os maiores produtores, naquele momento, eram o Senador Barros Penteado, os irmãos Levy, Mario de Souza Queiroz, o Dr. Luiz Bueno de Miranda e o Coronel Gordinho Filho, sendo produtores menores José Teixeira Marques, Theodoro Kuhl, Dierberger e Irmãos e J. Levy e Filhos. Os maiores exportadores, entretanto, eram os Irmãos Levy, Alberto Cocozza e Irmão e J. B. Souza.

Falando com o dr. Felisberto de Camargo, técnico da seção de Citricultura, foi informado que estavam sendo criadas três sub-estações de citricultura: uma em Limeira, na estrada de Araras, com 30 alqueires, que hoje atualmente é o Centro de Citricultura “Sylvio Moreira”, em Cordeirópolis; Sorocaba, na chamada “rodovia de Campo Largo” e no litoral, na região do Vale do Ribeira. Foi citada também a Fazenda Santa Elisa, em Campinas, do Instituto Agronômico, com preparação de mudas e pomares. 

Citou-se também a Cooperativa dos Citricultores de Limeira, que teria por objetivo colocar o produto no porto de Santos para destinar a qualquer mercado estrangeiro. Seus membros eram o major José Levy Sobrinho, Henrique Barros Sampaio, Thomaz Rossetti, agrônomo e pai da pesquisadora Victoria Rossetti, Flamínio de Toledo Barros, dentre outros. Curiosamente, nada se fala da Fazenda Ibicaba, mas da Fazenda Morro Azul, que fica próxima.

O Correio Paulistano destacou, em 30 de maio de 1929, que Limeira estava recebendo, naquele momento, o Sr. Karam N. Karam, intitulado “o maior exportador de laranja da Síria e do Líbano”, que teria vindo ao Brasil por ser um país “muito liberal e aqui, quem trabalha, fica mesmo rico...”, ressaltando que em seu país a laranja exportada se chama “de Jaffa”, parecida com a Bahia, mas sem umbigo, e de cor vermelha, com aroma acentuado e gosto semelhante à “Selecta”. 

No início do mês de junho, o então Ministro da Agricultura, Lyra Castro, visitou Limeira devido ao fato de que o governo federal, em conjunto com o estadual, estava erguendo uma packing house para exportação de laranja. O ministro foi então recebido pelo prefeito, pelo major Levy Sobrinho, o juiz de direito e o vice-prefeito, dirigindo-se para o beneficiamento de laranja dos irmãos Levy, onde puderam ver como se classificavam as frutas, como eram polidas, o encaixotamento e uma máquina de descascar laranja, bem como métodos de classificação. Foi oferecido almoço no “Instituto Musical Carlos Gomes”.

Em seu discurso, o major Levy Sobrinho destacou que Limeira, naquele momento, tinha 10 milhões de pés de café, 2 milhões de laranjeiras e 1 milhão de amoreiras. Em seguida, visitou a fazenda Itapema, e a chácara do Sr. Teixeira Marques, além da Fazenda Retiro e a Chácara Bahiana, chegando até as obras do packing house.

Apesar de toda a preocupação e investimento dos governos, a situação não era tão animadora. Em setembro, o serviço de inspeção instalado no Porto de Santos concluiu por diversos defeitos na colheita, do acondicionamento à classificação, informando que as laranjas brasileiras não alcançavam boa cotação por serem inferiores em qualidade às laranjas da Califórnia, além de ter fraca resistência, não podendo ser guardadas por muito tempo. Outro problema era o preço mais atrativo da laranja americana, que contariam com aparelhagens melhores. 

Dentre os defeitos encontrados, detectou-se falta de técnica e de cuidado de exportadores de laranjas, como por exemplo um lote em que as laranjas com pedúnculo comprido eram de número elevadíssimo; outro exportador sempre mandava menos 16 laranjas por caixa do que o esperado e outro apresentava grande quantidade de laranjas fracas, em conseqüência de ter lavado as frutas em um tanque, quando deveria ter usado máquinas próprias. Por fim, havia exportadores que mandavam laranjas com muitas frutas estragadas em uma câmara chamada de “ventilada”, mas sem nenhuma ventilação. 

E mais: o peso mínimo de uma caixa de laranja para exportação deveria ser de no mínimo 35 quilos, mas a inspeção verificou que mais de 50% de caixas de outras firmas, que não fossem Dierberger & Cia., tinham menos de 35 quilos, em virtude de “falta de técnica” na embalagem. A maioria das caixas onde as laranjas eram embaladas era de boa qualidade, mas dois exportadores usaram madeira já empregada em outros transportes e sem cuidado na sua confecção. Muitas caixas não estavam cheias, acusando peso 20% menor do que o esperado, além da presença de caixas com dois ou três tamanhos.

No combate às pragas, o que se verificava era que os produtores só podavam as laranjeiras, capinando em volta da árvore ou colocando foto no mato dos laranjais, sendo pedido que se evitassem as mutilações e outros processos que conduziam à diminuição ou extinção da cultura. Ainda mais: foram encontrados no porto alguns lotes de laranjas atacadas por insetos chamados cochonilhas, além de larvas de moscas e fungos que causavam o apodrecimento de frutas em trânsito.

Também foram encontrados defeitos de colheita, como laranjas com pedúnculos compridos ou arrancados, o que poderia causar o apodrecimento das frutas, e a falta destes órgãos gerava uma fruta de baixa qualidade para exportação. Foram encontrados cortes de tesoura, além de danos por unhas, arranhões e feridas feitas por espinhos, numa média bastante elevada. Somente a firma Irmãos Levy, de Limeira, não teve nenhuma falha nos lotes pesquisados, que também tiveram outros defeitos biológicos. Quanto aos limões, todas as caixas encontravam-se impróprias para exportação. 

Segundo o Diário Nacional de 13 de outubro de 1929 as laranjas exportadas tiveram acolhimento no mercado de Londres no ano anterior, mas neste ano os produtos já não estavam agradando os consumidores. Em relatório feito pelo técnico Felisberto de Camargo, concluiu-se pela falta de técnica e cuidado dos exportadores, onde foram encontradas caixas de laranjas com pedúnculo comprido e falta de frutos, além de não se preocupar com a numeração externa do tamanho da fruta, além de laranjas lavadas num tanque, e não em máquinas apropriadas. 
Embarcando suas laranjas em câmaras sem ventilação, chegou ao destino uma caixa com laranjas podres. Quanto ao comércio interno de laranja, concluiu-se que ele era feito sem método e sem critério. O inspetor dos frutos, em 10 de junho, informou que “passou vergonha” ao ver as laranjas compradas em Santos pra consumo a bordo, que tinham aspecto “asqueroso” e estavam acondicionadas em caixas de sabão que, em épocas remotas, também eram usadas na importação de querosene. Nestas caixas, não havia uma laranja boa, e caso houvesse, causaria nojo a quem tirasse dela. 

No dia 18, o Correio Paulistano traz reportagem sobre a reunião da Sociedade Rural Brasileira, onde foi discutida a citricultura paulista. O dr. Mario de Souza Queiroz, um dos principais produtores de laranja de Limeira, tendo criticado o trabalho do Serviço de Citricultura do Estado, recebeu resposta de Felisberto de Camargo de forma detalhada. 

Disse o técnico da área citrícola que sua seção contava com técnicos renomados, como o prof. Filippe Cabral, da Esalq, além de João Herrmann e Tito de Lemos, do Instituto Agronômico. Falou que a divergência entre ambos era somente por causa da escolha dos “cavalos” para enxerto. Quanto ao baixo preço das laranjas no mercado europeu, foi explicado que o problema era causado pelo dumping feito pela Califórnia contra as frutas do Brasil e da África do Sul. No fim do ano, o governador do Maranhão, José Pires Sexto, visitou Limeira, que percorreu diversas áreas de citricultura, além do prédio da packing-house.

Com relação aos trabalhos realizados neste ano, o relatório presidencial de 1930 indicava que “o serviço estendeu-se (...) às sub-estações de Limeira, São Roque e Sorocaba (...) sendo que a primeira e a última estavam “em período de formação”. Foram instalados packing houses  em Sorocaba e Limeira, sendo que foram investidos valores, repartidos entre o Estado, com 5/8 do valor, o Ministério da Agricultura, com ¼ e o Município de Limeira, com 1/8.  Inaugurada a instalação em Limeira, ao invés de seu nome original, passou a ser chamada de “Casa da Laranja”, conforme reportagem de abril de 1930 do jornal “Correio Paulistano”. 

Foram realizados serviços de inspeção das laranjas e também do Frigorífico de Santos e realizada, em Limeira, a primeira semana citrícola, onde foram feitas palestras e demonstrações práticas sobre as pragas dos laranjais, que tinham por objetivo habituar os citricultores a se reunirem, criar a cooperativa do município e orientar os produtores em detalhes técnicos, para evitar “erros do passado”. O trabalho em Limeira se iniciou em uma “velha chácara da Municipalidade, na estrada de Piracicaba”, que foi preparada pra formação do viveiro ou laranjal e criada uma sementeira. 

Em reportagem do “Estado de São Paulo” de 9 de fevereiro de 1930, destaca-se que naquele momento já havia diversas cidades orientadas para o cultivo dos citros, como resposta à crise do café, como Limeira, Sorocaba, Campinas, Americana, Araras, Piracicaba, Tietê, Laranjal Paulista e Rio Claro. Nesta cidade, desde o ano anterior, a municipalidade interveio incentivando o plantio de laranjais, organizando uma extensiva cultura de mudas enxertadas para fornecimento aos lavradores interessados.  

Em extensa reportagem de 26 de abril de 1930, o Correio Paulistano destaca a “Casa da Laranja” de Limeira, local de onde saiam milhares de caixotes destinados a Londres e Hamburgo. Segundo o texto, as laranjas inicialmente seguiam em caminhões para a Casa da Laranja, onde seriam colocadas em locais abrigados do sol. Depois de três dias de descanso, as laranjas iriam para uma máquina, onde era feita a lavagem, a secagem e a classificação em quatro qualidades, para depois serem encaixotadas.  

De acordo com o chamado “systema californiano”, cada caixote recebe um número, indicando a existência de vinte e cinco ou cinqüenta laranjas. Após serem colocadas nos trens, são levadas até o Porto de Santos, sendo que em São Paulo eram distribuídas pela Companhia Antarctica Paulista na casa do consumidor. Citou-se a Cooperativa dos Fruticultores de Limeira, por iniciativa do major José Levy Sobrinho, que mereceu apoio dos governos federal, estadual e municipal. 

Quanto à Casa da Laranja, ou “packing house”, o prédio mede 40 por 40 metros, com dois vãos livres e dividido por três colunas, em duas partes distintas. De um lado, a fruta era armazenada conforme vinha dos laranjais, para passar depois por máquinas de lavagem, secagem e polimento, além de esteiras de classificação, contando também com um balcão para armazenamento e etiquetamento de caixas vazias, que são construídas por uma máquina importada. Havia também um corredor para o serviço de fiscalização, onde trabalhavam mais de 100 moças encaixotadoras. Foram realizados aperfeiçoamentos no maquinário importado, feitos pelo Sr. Emilio Bianchi, que atuava na área desde cinco anos antes. 

Neste período, era responsável pelo “Campo Experimental de Limeira” o dr. Modesto Lins. Um dos pontos interessantes da reportagem era o “grande surto da produção da seda”, concluindo que a sericicultura era um dos grandes e notáveis empreendimentos dos limeirenses e uma grande fonte de riqueza. Em maio, a Cooperativa dos Fruticultores estava iniciando a venda de laranjas da “Casa da Laranja” na Capital, com duas opções: cesta com 50 laranjas Bahia ou com 150 laranjas cravo. 

O jornal “A Gazeta”, que não estava incluída na propaganda citrícola, informava em junho de 1930 que não eram “de todo desanimadoras as cifras relativas” à produção de frutas paulistas, que estavam longe daquilo que deveriam ser. Falava-se que em vários municípios estavam se organizando sindicatos e cooperativas, além de atrair uma empresa de capital estrangeiro. 

Limeira e Sorocaba eram grandes “centros pomológicos”, reduzindo a monocultura e incentivando outros empreendimentos agrícolas. O periódico esclarecia que, naquele momento, a fortuna deveria ser distribuída entre os pequenos produtores, em vez de ficar restrita a “alguns miliardários”.

Mesmo assim, o serviço de citricultura sofria críticas pela imprensa, respondidas em 18 de junho pelo chefe do Serviço de Citricultura do Estado, onde sugere ao crítico uma viagem às cidades de Sorocaba, Limeira e Campinas, onde seriam visitadas propriedades agrícolas e as fazendas experimentais Taquaral e Santa Eliza e a propriedade Guimarães, no prazo de cinco dias. 

Da reportagem de julho de 1930 sobre a ação do Instituto Agronômico no aprimoramento da citricultura, destacam-se as realizações da Sub-Estação Experimental de Sorocaba, cujo chefe naquele momento era o engenheiro João Herrmann, descrito como um dos mais abalizados engenheiros contratados pelo governo. De sua biografia, constava: “O Sr. João Herrmann há 28 anos que veio contratado para trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas. Na Europa, trabalhava no Domínio Real de Viticultura e na Estação Imperial de Agricultura, da Alsácia.” 

Segundo “A Gazeta” do mesmo período, registra-se a homenagem da Cooperativa dos Fruticultores à imprensa, sendo que o seu gerente, Salvador Bianchi, iria falar sobre a obra do major José Levy Sobrinho em matéria de citricultura, além da organização da “Casa da Laranja”, palestra que seria gravada pela empresa cinematográfica Rossi Film. Também seriam inaugurados os retratos do Dr. Fernando Costa, secretário da Agricultura e do major José Levy Sobrinho. Nesta oportunidade, seriam também credenciados vendedores ambulantes dentre “operários sem trabalho”, autorizados pela Prefeitura de S. Paulo com isenção de impostos para comercialização das frutas na Capital. 

Em agosto, o mesmo jornal, analisando os problemas da citricultura e as soluções implantadas nos últimos anos, indica que, “muito embora as nossas frutas ainda não estejam espalhadas por todos os países da Europa, de ano para ano aumentam as remessas para os mercados reexportadores da Inglaterra, Holanda, Alemanha e França (...)”, sendo que “este ano a Finlândia começou a receber frutos do nosso mercado.” Com a Revolução de 1930, a administração estadual muda de mãos a partir de 24 de outubro. 

No início de 1931, de acordo com o “Diário Nacional”, foi nomeado Eurico Dias Martins,  na qualidade de especialista, para dirigir ao Serviço de Citricultura do Estado. Em fevereiro, foi noticiado que estava sendo providenciada a instalação de um nova sub-estação de citricultura, ocupando terras da antiga Fazenda Santa Elisa, em Campinas. 

Falando sobre os problemas na exportação de laranja, um artigo de fevereiro indica que existem questões a resolver no transporte marítimo, em navios que deveriam satisfazer “os requisitos necessários”, uma vez que o Lloyd Brasileiro não estava adaptado para a exportação de laranjas e era imperioso que fossem adaptadas ou adquiridas cinco unidades de 10 mil toneladas destinadas exclusivamente ao transporte de frutas, partindo de Santos e do Rio em direção a Europa e outras de Salvador e Recife em direção ao Velho Mundo. 

Em 4 de março de 1931 foi divulgado pelo “Diário Nacional” que tinha sido assinado no dia anterior um decreto que concedia autonomia ao Serviço de Citricultura, desanexando-o do Instituto Agronômico de Campinas. O mesmo fato foi noticiado pelo jornal “A Gazeta” da mesma data. 

Neste período, com a mudança de governo, tomam-se atitudes que geram críticas. Respondendo a elas, a nova administração da Secretaria da Agricultura justifica o contrato de arrendamento do packing house  de Limeira, que recebeu vultosos investimentos das três esferas de governo. 

De acordo com a reportagem, o equipamento ficou paralisado após o desligamento do Serviço de Citricultura do Instituto Agronômico, pois tinha erros fundamentais de construção e instalação, não podendo funcionar sem grandes modificações. Assumindo as responsabilidades, o antigo chefe do Serviço pediu abertura de inquérito para verificação dos erros e licença para demonstrar a eficiência e utilidade das máquinas. 

No início da nova administração da Agricultura, foi recebida da Companhia de Mineração e Metalurgia uma proposta de arrendamento da instalação, pois ela tinha criado uma seção para exportação de frutas e se propunha a arrendá-lo, obrigando-se a fazer melhoramentos, sob a orientação do antigo chefe do serviço de citricultura. 

Segundo a reportagem, o custo da implantação da packing house foi a metade do divulgado pela imprensa, sem contar que o serviço de citricultura, ao depender do Instituto Agronômico, não exigia um grau de acidez específico das laranjas. Tornado obrigatório, prejudicou a exportação, sendo elas enviadas muito maduras, chegando ao destino em mau estado. Ao mesmo tempo, foi designado o Sr. Tito de Lemos Júnior, da Seção de Horticultura do Instituto Agronômico para exercer o cargo de fiscal de embarque de laranjas em Limeira, inclusive na packing house. 

Segundo o “Diário Nacional” de 12 de abril, o Serviço de Citricultura respondeu que o fiscal de Limeira era inimigo pessoal do Dr. Felisberto de Camargo. Em virtude do que ocorreu posteriormente, o responsável nomeou o substituto para o diretor de serviço, bem como o fiscal de Limeira. 

O funcionário cujo contrato foi revogado trouxe funcionários do Rio de Janeiro, que se demitiram em função de desentendimentos, inclusive a companhia que arrendaria a packing house faria a instalação de câmaras de coloração de laranjas por etileno... 

Em junho, uma manchete d´A Gazeta destaca a inauguração de uma “Casa das Laranjeiras”, sob a direção de Salvador Bianchi, que teria por objetivo de incentivar a cultura das laranjas, com fornecimento de enxertos aos interessados. Chamando todos os jornais de São Paulo, ofereceu aos seus representantes um aperitivo, lembrando de sua trajetória na fundação da antiga “Casa da Laranja”, fundada pelo major José Levy Sobrinho e continuada por ele neste momento. Agradeceu também ao Dr. Fernando Costa, ao engenheiro Navarro de Andrade e aos jornais de São Paulo que fizeram a divulgação nos anos anteriores. 

Como encerramento deste período, destacamos a edição do Decreto nº 5.150, de 6 de agosto de 1931, publicado em 7 de agosto, data em que a criação do Distrito de Cordeiro completava 32 anos, declarando de utilidade pública uma área de 29,05 alqueires (703.150 m2) pra instalação da Sub-Estação Experimental de Citricultura em Limeira, de propriedade de Joaquim Meira Botelho, origem do Centro de Citricultura “Sylvio Moreira” em Cordeirópolis. 

Em setembro, a aquisição da área foi autorizada, nos termos indicados no parecer da Procuradoria Fiscal pela Secretaria de Agricultura, em comunicado à Secretaria de Fazenda, sendo lavrada a escritura de compra no dia 7 de outubro.
 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo César Tamiazo - Historiador - MTE nº 713/SP
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis - https://orcid.org/0000-0003-2632-6546
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