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 Cordeirópolis e a Indústria de Seda Nacional (1920-1957) - Portal Cordero Virtual

Cordeirópolis e a Indústria de Seda Nacional (1920-1957)

04/10/2021 15:05:03
Em março de 1920, assinaram uma escritura de contrato para formação de viveiros de mudas de amoreiras os senhores Arthur Meissner, que declarou residir em Santa Gertrudes, e Emil Schlaepfer, morador da Capital. Estimando o valor dos investimentos em 15:000$000 (quinze contos de reis), projetaram para o período de 10 de março de 1920 a 15 de junho de 1921 a realização desta atividade. 

Ao mesmo tempo, foi assinada a primeira escritura de compromisso para compra de áreas de terras, dentro da zona urbana de Cordeiro, para que o experimento pudesse ser realizado. Devido à insegurança jurídica existente na área da propriedade da terra no local, as negociações e tratativas duraram muito mais tempo do que o esperado. Os compromissos foram renovados e ampliados durante todo o ano de 1921, chegando o último a ser realizado em junho de 1922, quando finalmente foi fundada a “S.A. Indústria de Seda Nacional”, em Campinas. 

Em sua diretoria, estavam: Luiz Tavares Alves Pereira que, segundo artigo da profª Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado na “Revista de História” da USP em 1968, era descendente direto do pioneiro da sericicultura brasileira, José Pereira Tavares, que criou a “Imperial Companhia Seropédica Fluminense” em 1852; o barão Clemente de Althaus, representante da “Banca Francese e Italiana per L´America Del Sud”, que posteriormente transformou-se no “Banco Sudameris”; Diretor Delegado: Arthur Odescalchi e Diretor Secretário: Emil Schlaepfer, envolvidos diretamente na organização da empresa, e na compra das terras de Cordeiro, onde seriam plantadas 500.000 mudas de amoreiras. 

De acordo com importante informação prestada por um de seus descendentes, ao qual agradeço, Clemente de AlthausDartnell trabalhou na “Banca Francese e Italiana” de 1914 ou 1915 até 1932 ou 1933, tendo vivido este tempo no Brasil e no Uruguai. Posteriormente, foi chamado ao Peru a integrar-se ao “Banco Central de Reserva”, fundado em 1922. Foi Secretário Geral, sub-gerente, gerente e Presidente do Banco até 1954, ano de seu falecimento.

Segundo as atas de constituição da sociedade, os atos realizados pelos senhores Schlapfer e Odescalchi, ou seja, compras e compromissos de compras de terrenos em Cordeiro, contratos de compra e formação de mudas de amoreira, contratação da construção das instalações em Campinas e Cordeiro, aquisições de terrenos em Campinas e compras de maquinário italiano importado, além de autorizações dos Municípios de Limeira e Campinas, foram aceitos pelos acionistas, destacando-se a presença da Banca Francese e Italiana per L´America Del Sud, com 10% do capital, no valor de Rs. 150:000$000 (cento e cinquenta contos de reis). 

Os objetivos da empresa eram, em primeiro lugar, favorecer o desenvolvimento da cultura do bicho da seda, fornecendo aos cultivadores todas as instruções necessárias e financiando-os, se for o caso, além de fiar, torcer e tingir fios de seda, explorando indústrias afins.  O capital reunido, no valor de 1.500 contos de reis, foi dividido em 7.500 ações, das quais Schlapfer e Odescalchi teriam 1.000 cada, a Amerital S/A, 500, o Banco Francês e Italiano, 500, o empresário Ernesto Diederichsen, 500 e a família Levy, 450 no total, dentre outros. Diversos acionistas da Indústria de Seda Nacional também o eram da Amerital, que tinha sido constituída sob a presidência do mesmo Luiz Tavares Alves Pereira. 

Oficializada a criação da indústria, comparece, na qualidade de seu diretor, Arturo Odescalchi, empresário italiano definido como a pessoa que “procurou emancipar o Brasil da importação de seda da Itália”, comprando, de diversas pessoas, uma área para implantação deste experimento com as amoreiras. 

De João e Augusto Lucke e suas mulheres, compraram um terreno de 10 alqueires, além de três casas situadas na rua Carlos Gomes.Por Joaquim Manoel Pereira, foram vendidas casasna rua Toledo Barros, até a rua 13 de Maio; de Luiz Buzatto, compraram uma casa na rua Carlos Gomes; de Jacob Pagotto, uma casa com frente pela mesma rua; da firma “Joaquim Pereira & Cia.”, 13.826 m2 de terra, sendo 5.582 m2 no quarteirãoaté a rua 13 de Maio e 8.244 m2 no quarteirão da Rua Santos Dumont; de Adolpho Lucke e sua mulher, compraram um terreno na rua Carlos Gomes e de João Turi, uma casa à mesma rua,esquina da rua José Bonifácio.

Do valor total de Rs. 69:700$000 (sessenta e nove contos de reis), os irmãos Lucke receberam Rs. 34:000$000, Adolpho Lucke recebeu 1:400$000, João Turi e sua mulher receberam 8:000$000, Luiz Buzatto recebeu Rs. 2:000$000, Jacob Pagotto, Rs. 4:500$000, cabendo a Joaquim Pereira & Cia. o valor de 7:800$000, sendo que sete contos foram transformados em ações da companhia, em favor de José Levy, na qualidade de representante da firma “Joaquim Pereira & Cia.” figurando no quadro inicial de diretores da empresa. Ao próprio Pereira foram dados Rs. 12:000$000 por suas terras particulares, através de uma letra de câmbio, com vencimento em 31 de dezembro.  

Interessante notar que a firma Joaquim Pereira & Cia “impôs” à compradora a condição de “não expulsar a viúva Felizarda” da casa situada no terreno situado entre as ruas Carlos Gomes e Saldanha Marinho, condição que poderia substituída caso fosse colocada à sua disposição uma casa de mesmo valor na então “Villa de Cordeiro”. 

Tendo sido desenvolvida, pelo governo federal, uma política de incentivo à indústria nacional, através de um Decreto de setembro de 1923, em pouco tempo, a 3 de outubro, foi autorizada a concessão de diversas vantagens à “Indústria de Seda Nacional”, como: isenção de direitos de importação e taxas alfandegárias para todas as máquinas destinadas às instalações da empresa; subsídio para fornecimento de sementes selecionadas aos criadores; subsídio de Rs. 100$000 por milheiro de mudas de amoreiras que distribuir aos criadores, efetivamente plantadas; prêmio de Rs. 3$000 por quilo de fio de seda produzido com casulos nacionais. 

Por sua vez, a empresa era obrigada a incrementar a sericicultura, propagando métodos aperfeiçoados e adequados ao seu desenvolvimento; estudar fatores de produção e doenças que as afetassem, mantendo estabelecimentos e instalações apropriadas e modernas para a reprodução, seleção, preparo e distribuição de sementes; preparar, cultivar e distribuir mudas das espécies de amoreiras mais vantajosas à criação;ministrar instrução pratica gratuita sobre a criação do bicho da seda, mantendo em zonas apropriadas escolas práticas ou criações-modelos; garantir a compra de todos os casulos produzidos com as sementes que distribuir, mantendo um ou mais estabelecimentos de fiação e torção do fio, com capacidade suficiente para utilizá-los.

Para recebimento dos incentivos, a empresa deveria manter, em terrenos devidamente cultivados e de sua propriedade, amoreiral ou amoreiras permanentes com quantidade não inferior a 100.000 pés; viveiros com plantação pelo menos de 500.000 mudas ou enxertos de amoreiras; sementeiras correspondentes a dois quilos de sementes das melhores espécies de amoreiras, considerada a superioridade pelo seu poder nutritivo para o bicho da seda.

Os resultados deste esforço foram reconhecidos pela história econômica do Brasil. Wilson Suzigan, em “Indústria Brasileira: Origem e Desenvolvimento”, aponta que durante a década de 1920 e na década seguinte, a S.A. Indústrias de Seda Nacional recebeu subsídios e isenção de impostos de importação, com a produção de casulos no país aumentando de nove toneladas, em 1923, para seiscentas, em 1934 e o número de tecelagens de seda crescendo rapidamente neste período, subindo de doze em 1922 para 37 em 1929. 

A “Indústria de Seda Nacional” tinha sido implantada com o objetivo de introduzir e incrementar a sericicultura, em todas as suas modalidades, em virtude da ausência de órgãos oficiais especializados, conforme destacou o deputado Manuel Marcondes Filho, em seu projeto de lei nº 1794/1958, sobre a contagem de tempo para aposentadoria dos empregados desta empresa. 

Entre 1922, a empresa criou estruturas, chamadas Inspetoria Agrícola, Instituto de Sericicultura e de Tecnologia Sérica, cujas atividades práticas foram absorvidas pelo Estado de São Paulo em 1935, com a criação da 3ª Seção do Departamento de Indústria Animal da Secretaria Estadual da Agricultura, encerrando a ação da iniciativa privada neste assunto. As pesquisas realizadas pela indústria eram expostas em uma publicação gratuita, encerrada coincidentemente no mesmo ano. 

A Indústria de Seda Nacional foi beneficiada, pelo Governo do Estado, em 1924 e 1929, com subvenções e investimentos na propaganda da sericicultura, e pelo Governo Federal, de 1923 e 1932. Mesmo assim, a parte mais custosa e importante, a pesquisa, foi incorporada pelo Governo do Estado, transformando em funcionários públicos os antigos empregados, encampando os institutos e as estações experimentais então existentes.

Mesmo o Estado tendo se aparelhado para a produção de tecidos de seda natural para exportação, a produção de casulos caiu, a partir de 1934, sendo atribuído este fracasso à falta de abrangência da ação governamental, poucas pessoas trabalhando, facilidade de outras culturas e o baixo preço pago pela indústria pelos casulos produzidos. 

Ainda assim, a Prefeitura de Limeira, aproveitando-se do exercício do mandato da então deputada Maria Tereza Silveira de Barros Camargo, doou, em 1936, uma área para a criação da “Estação Experimental de Sericicultura”. Na análise do projeto, foi destacado que “não só em Limeira, mas numa grande área territorial, de que se destacam Cordeiro e Cascalho, se cuida, de há muito, e devotadamente, da cultura dos bichos da seda”. 

Ampliando a ação do Estado, em 1941 foi criado o “Serviço de Sericicultura”, justificando-se a medida no fato de que ela seria “nada mais do que o prosseguimento da salutar campanha iniciada, com apoio oficial, pelo Secretário Estadual e Ministro da Agricultura”, naquele momento o Interventor Federal no Estado de São Paulo, Fernando Costa, destacando que as plantações se destinavam ao fornecimento de “folhas às famílias pobres que, não possuindo terra, desejem dedicar-se à criação do bicho da seda”.   

A insuficiência da iniciativa da Seda Nacional, apontada com a criação deste Serviço, foi comprovada com a edição do Decreto-Lei nº 13.170, de 31 de dezembro de 1942, onde foram comprados (e não desapropriados) o Instituto de Sericicultura, a Inspetoria Agrícola de Campinas e as Estações Sericícolas de Cordeiro, Cosmópolis e Piracicaba, de propriedade de Francisco Matarazzo Júnior, herdeiro do fundador das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM). A mudança das regiões de produção do bicho da seda para as regiões da Alta Paulista e Noroeste, nos anos seguintes, fizeram com que estas instalações ficassem abandonadas.

Conforme nos lembra o Condepacc, a empresa tinha sido fundada, em Campinas, em 22 de maio de 1923, como subsidiária da “Tecelagem de Seda Italo-Brasileira”, sendo comprada pela IRFM em 1935. Em 1942, as Reunidas adquiriram as instalações fabris de Campinas, alterando sua razão social para Tecelagem de Seda Brasileira. 

Em 1950, Cordeirópolis tinha pouco mais de 6.000 habitantes, terminando por contar com aproximadamente 7.600 em 1960, o que denota um período de expansão urbana e franco crescimento populacional. 

Por ação das lideranças locais do PSP, o então governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez (1951-1955), apresentou projeto de lei autorizando a doação ao Município de um terreno de 27.652 m2, situado entre as ruas 13 de Maio e Carlos Gomes, no trecho entre a rua Guilherme Krauter e Saldanha Marinho.  

Na sua justificativa, o governador alega que as áreas “encontram-se dentro de zona urbana (...), o que impediria o crescimento normal da cidade (...) e iria se facilitar ao município a solução do problema da habitação”. A doação foi oficializada pela Lei Estadual nº 2605, de 20 de janeiro de 1954, sendo recebida pelo Município através da Lei Municipal nº 95, de 5 de abril do mesmo ano, assinada pelo então prefeito Dr. Cássio de Freitas Levy.

Em 1955, tomou posse o novo governador do Estado, Jânio da Silva Quadros (1955-1959), derrotando o ex-governador Ademar de Barros, mas o mandato do prefeito Cássio Levy continuaria até março de 1957. Em dezembro de 1956, o governador encaminha projeto autorizando a doação de área contendo 289.148 m2, expandindo o núcleo urbano da cidade em mais de um quilômetro a partir da Praça Francisco Orlando Stocco, abrindo-se depois a Avenida Presidente Vargas, por muito tempo, a maior avenida da cidade. 

Pela Lei nº 4.034, de 16 de agosto de 1957, o Estado oficializou a doação do terreno para realização de loteamento popular, baseando-se em solicitação da Prefeitura Municipal, que alegou novamente a “crise de habitação”, comprovada pelo fato de que o terreno anterior foi dividido em 60 lotes, para os quais concorreram 120 interessados, e que este terreno seria objeto de um novo loteamento, reservando-se inclusive locais para instalação de indústrias.  A área seria recebida pelo Município através da Lei nº 162, de 22 do mesmo mês, tempo recorde em comparação ao anterior, quando se passaram três meses entre a passagem das esferas de governo. 

Pela Lei nº 183, de 5 de maio de 1958, ficou definida a criação do “Loteamento da Prefeitura Municipal”, que serviria para fins residenciais, comerciais, industriais, chácaras “e etc.”, sendo autorizada a cessão gratuita de áreas para instituições públicas, assistenciais, esportivas, recreativas e culturais, além de cessão gratuita, ou venda, de terrenos para fins industriais, dando-se preferência aos interessados na construção da “casa própria de caráter popular”, mas poderiam ser distribuídas mais de uma área a um só adquirente. 

Em 1961, foi autorizada a expansão do loteamento, continuando a preferência para a construção de “casas próprias”, com desconto de 20%, permitida a transferência dos contratos a terceiros, com autorização da Prefeitura, recebendo-se a escritura definitiva somente com a construção das casas, mas seria permitida a assinatura do termo mesmo sem construção, com  o pagamento de 10% a mais sobre o preço do lote. 

Por fim, os contribuintes que estivessem devendo impostos não poderiam adquirir, transferir ou receber em transferência os lotes, além de ficar definido que a falta de pagamento das prestações, por mais de três meses, geraria a anulação do contrato e devolução do terreno à Prefeitura, sendo restituidas as prestações já pagas. Como encerramento deste drama (ou talvez tragédia), resta-nos lembrar que a denominação “Vila Nova Brasília” só foi dada em 1968, pela Lei nº 555, de 11 de novembro, substituindo a discriminação genérica “Loteamento da Prefeitura Municipal”. 

Ressaltamos que todas as informações deste texto foram extraídas de fontes públicas, como as escrituras do Tabelionato de Notas e Protesto de Cordeirópolis, a partir de pesquisas realizadas por mim na década de 1990 com autorização dos então responsáveis, e nas páginas digitalizadas dos “Diários Oficiais” da União e do Estado de São Paulo, disponibilizadas pelo sítio “Jusbrasil”. Agradeço especialmente aos senhores Jaime e Miguel de Althaus, do Peru, os quais, contatados através de correio eletrônico, gentilmente apresentaram dados sobre seu avô, Clemente de AlthausDartnell (1877-1954).
 Revivendo História - Portal Cordero Virtual
Revivendo História
Por: Paulo César Tamiazo - Historiador - MTE nº 713/SP
Revivendo a Historia publica artigos periódicos sobre os mais variados temas da História de Cordeirópolis - https://orcid.org/0000-0003-2632-6546
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